sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Escritos sobre a greve - 12º PARTE

Sócrates Santana
As coisas começaram a ficar evidentes, nem claras, nem escuras, evidentes. A unificação dos sindicatos, a falsa impressão que o partido era o governo, que o velho barbudo sofreu um golpe e uma liderança inimaginável assumiu o poder, que os nomes das ruas mudaram sem consulta prévia, que as eleições que aconteceram não aconteceram, e que a greve perdeu a validade, caiu em desuso, e que os Escritos sobre a greve são páginas de uma história em construção, que o livro no sovaco do menino de unhas por fazer não ensina nada, não comprova nada e que a qualquer momento todas as informações que possuía iriam colocar a sua vida em perigo, pois, logo logo uma carta iria cair sem maiores justificativas em suas mãos e nesta estaria escrito os próximos passos dessa novela. Depois de tropeçar em devaneios, olhou para o lado e viu uma menina sentada sobre um pedaço de banco de madeira, onde rabiscava um trecho de um poema "Arte longa vida breve Escravo não se escreve Escreve só não descreve Grita grifa grafa grava Uma única palavra Greve", parecia realmente evidente, ainda que o que parece possa não ser, ainda que o que é realmente seja uma convenção, ainda que a evidência seja uma dúvida, parecia, realmente, uma evidência, que logo se perdeu com o esfregão dos olhos de uma menino de braços sujos de sangue e verdade. A menina foi apagada como linhas de giz e o final da rua deu vez a próxima esquina, dobrada por pernas fragéis e orientadas por braços capazes de arrancar das entranhas de um homem todas as respostas de suas dúvidas, se assim for preciso.

Escritos sobre a greve 1º PARTE
Escritos sobre a greve - 2º PARTE
Escritos sobre a greve - 3º PARTE
Escritos sobre a greve - 4º PARTE
Escritos sobre a greve - 5º PARTE
Escritos sobre a greve - 6º PARTE
Escritos sobre a greve - 7º PARTE
Escritos sobre a greve - 8º PARTE
Escritos sobre a greve - 9º PARTE
Escritos sobre a greve - 10º PARTE
Escritos sobre a greve - 11º PARTE

Viajens de Walter

Katherine Funke1

Duas palhetas, um cortador de unha, cinco camisetas, quatro bermudas, um chinelo. A mochila ia ganhando peso. Walter fazia a cabeça e a mala no ritmo de uma tartaruga.
2
Antes de sair, tocou "Don't let me down" no violão. Era uma pena deixar o instrumento em casa, mas havia decidido levar apenas sua mochila. Quanto mais leve a bagagem, mais destinos possíveis haveria. E o violão estaria sempre à sua espera, em casa. Se houvesse volta.
3
Ia saindo, já no portão, quando avistou Ricardo a chegar. Pensou em se desvencilhar do amigo, fingir pressa. "Mas é um bom amigo", pensou, "é um ótimo presságio". Ricardo mal sentou, acendeu um cigarro sem filtro e começou a chorar. Walter, por ser médico, era o único que poderia ajudá-lo.
4
Ricardo era hipocondríaco, tinha problemas não muito graves. Sua voz monótona cortava ecos fragmentados de "Don't let me down" nos tímpanos do amigo. O que se via nas retinas internas de Walter eram objetos que agora pareciam realmente intocáveis - o açaí da esquina, a passagem do avião, a mão da menina nova que conheceria um dia. Ricardo percebeu o silêncio do amigo. Não se zangou; levantou e saiu. Walter foi junto - e então começou a falar.
5
"Não se preocupe com suas dores nas costas, você está sedentário e deprimido em conseqüência. É só se mexer um pouco e tudo melhora", Walter falava, a caminho do ponto de ônibus. Olhava para a frente, dava passos largos e sorria, por causa do ar fresco de chuva por vir. Ricardo andava com esforço. "É, pode ser isso mesmo", resmungou. Entraram no ônibus cheio, onde mal podiam conversar. Ricardo saltou antes. Em quinze minutos, Walter estava diante do balcão de uma agência de viagens. "Por favor, que vôos vão sair na próxima hora?", perguntou.
6
Beagá, Floripa, Manaus e Rio", disse a moça. Walter perguntou os preços. Indeciso, tomou um café de quatro reais, fez contas em sua caderneta. Concluiu que aviões, aeroportos e táxis seriam caros demais. Se quisesse passar dias e dias fora, em diferentes lugares, teria que economizar. O susto não o entristeceu, ao contrário. Walter, em silêncio, agradeceu à vida pela oportunidade de fazer algo diferente, enfim. Desceu cantando até o ponto de ônibus, ultrapassou-o e caminhou ao longo da Estrada do Côco, parando vez ou outra para pedir carona, tal como tinha visto em filmes.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Sobre os manos e os atalhos da vida...

Walter Takemoto

A partir dos 8 anos (isso quer dizer quase 44 anos atrás!) saí da Vila Mariana e fui morar lá no Alto da Vila Maria, quebrada da zona norte de São Paulo, de ruas de barro e casas pobres e cortiços, quase todas ocupadas por nordestinos e negros. Tive lá os meus primeiros amigos de jogar bola na terra batida e pés descalços, de nadar nas lagoas das águas do rio Tietê, de pegar rãs nos brejos, de jogar bilhar e pebolim. Foi lá também que fui vender sorvete nas ruas, fazer carreto nas feiras, carregar tijolos nas obras.

E a grande façanha foi ser lateral direito no Arsenal F.C. com 13 ou 14 anos, no meio de um monte de homens. Todos os domingos saía o time de várzea no ônibus lotado, em direção a uma outra vila qualquer, pobre do mesmo jeito; uns bebiam a cachaça direto no gargalo, outros fumavam o bagulho de todo dia, enquanto o surdo comia solto. Era a diversão de todos e a paixão de outros, como do roupeiro, que não jogava, mas tava lá, distribuindo e recolhendo as camisas gastas, sujas e fedidas de suor. E tinha os que torciam e que, na falta de rojão, comemoravam dando tiros pro alto, pois que o instrumento de trabalho estava sempre lá, na cinta e ao alcance da mão.

Entre esses tinha o Ceará, bicheiro, que virou lenda por trocar tiros sozinho com a quadrilha do Zezinho da Vila Maria ( bem em frente à casa em que eu morava), uns três ou quatro, e levou tiros na perna, no braço e na barriga e saiu andando sem ajuda de ninguém e pôs todos pra correr com um revolver em cada mão. E continuou dono da banca, enquanto que o Zezinho, por ironia do destino, morreria um tempo depois cheio de balas no estacionamento que fizeram na casa em que eu tinha nascido lá na Liberdade!

E jogava e andava nas quebradas comigo o Jafra, negão de seus 1,80 metro, bonito e forte como um touro, com seus 17 anos. O Jafra tinha o sorriso largo e bonito e era meu chegado do peito e de fé. De vez em quando, eu, lá com meus 15 anos, treinava boxe com ele. Certo dia, o Jafra saiu no braço, ninguém sabe muito bem por que, com o Tonhão, dono de boca de fumo, e não deu outra. O Tonhão apanhou feio. E o que destrói a história de qualquer dono de boca é correr a história de que apanhou de um moleque e ficou por isso mesmo. Dias depois, o Jafra morreu na ponta da faca do Tonhão. E o Tonhão, tempos depois, morreu na cadeia de Aids.

Periferia? Não, “periferida”

Como o Jafra, muitos morreram ou foram para a cadeia ou se acabaram na bebida e nas drogas. Baianinho, Vilson, Samuca, Boca de Sapo, Ari e todos os outros que morreram na memória. Lá naquelas ruas de barro vermelho aprendi o que é viver na “periferida”, os códigos que dão significado a um mundo que é regido por outros parâmetros de convívio e sobrevivência. E isso tudo é pra que mesmo?

É pra dizer que a ida do MV Bill lá na Daslu não me sai da cabeça!

MV Bill, parafraseando (acho que é esse o termo) o velho compositor baiano, como “quase todos os pretos e quase todos os pobres”, nasceu lá em uma quebrada do Deus me livre, onde as coisas são o que são, para os que não são nem pretos e nem pobres. Por alguma razão que desconheço, talvez a música quem sabe, o MV Bill, tal qual o Mano Brown, ou o outro Brown que o Mano esculhambou na MTV, o seu Jorge, o Robinho, ou qualquer outro preto e pobre, teve um atalho na estrada do destino de todos os outros tão iguais que morrem como o Jafra, de morte matada, ou como o Tonhão, de morte morrida na cela de uma cadeia, ou dos esquecidos que morrem e não sabem e teimam em continuar fingindo que estão vivos por aí afora.

E o MV Bill se tornou um rapper. E o MV Bill virou líder da comunidade dos quase todos pretos e quase todos pobres. E o MV Bill resolveu filmar e escrever sobre todos os outros que não encontraram o atalho de saída por algum lugar da estrada do destino de todos eles. E o filme é tão frio, tão seco, tão feio e tão nada, como é a vida de todos que lá estão. E onde é que ficam a alegria, a camaradagem, a solidariedade e tudo mais que sobrevive nas vilas e favelas?

Tudo muito bem, tudo muito bom. Bater laje, comer feijoada e tocar pagode no fim de semana é o que há. O mutirão pra autoconstrução barateia levantar o barraco ou o puxadinho. Dividir o quilo disso e daquilo demonstra o quanto a miséria forja laços de solidariedade e provoca o que de melhor pode a generosidade humana. Que os anjos digam amém!

Mas não é da alegria nascida da miséria que nós, brancos e não pobres, falamos durante anos a fio, ou, como já falaram, não é o pão e o circo que pretendíamos fosse o destino da humanidade.

O atalho salvador e consolador

É ótimo oferecer esporte, capoeira, dança afro, percussão, e coisas do tipo pros meninos e pras meninas dos morros e favelas. É lindo vê-los lá, praticando e sonhando um dia subir num palco e se apresentar pros quase todos brancos, todos intelectuais, todos emocionados, por verem os pretos e pobres que arrumaram um atalho que os tirou das drogas e do crime que apavora os brancos e ricos. Que sucesso é ver uns poucos se safarem, pelo menos não precisamos mais sentir a culpa pelos outros muitos que estão lá, no caminho que lhes reservamos!

O que acontece na vida real é que viramos as costas pra periferida, que purga dia após dia. Qual foi o governo que assumiu a responsabilidade política de enfrentar o problema da miséria, do desencanto, da desesperança e da subvida que marca milhões de brasileiros ? Não venham me falar de bolsa disso ou bolsa daquilo, pois prefiro as bolsas rodantes das dasputas, pois elas são profissionais!

ONGs? Ótimo, mas cadê elas pra dizerem alto e bom som que tudo que fazem nada vai resolver ? Cadê elas pra juntarem o povo e lutarem pra que tudo que fazem se torne de fato políticas públicas? Pois, ao fim e ao cabo, trata-se de dizer que o que importa é um governo que de fato transforme em prioridade o fim da exclusão social.

Mas, e o MV Bill? Tava me esquecendo dele! Foi lá o negrão na Daslu, lançar seu livro. Escândalo! Como é que pode o MV Bill, rapper, saído lá da favela, sobrevivente, que se apresenta com um cano na cinta, porta-voz dos fudidos “que não podem foder fudido”, aparecer ao lado da dona Eliane sei lá o que, trambiqueira de luxo?

Na hora em que vi a foto do MV Bill sentado com a dona Daslu pousando seu rico braço sobre seu ombro fiquei puto, indignado e não acreditava no que via. Passados os dias e a visceralidade do momento, pensei cá com meus botões:

– E os artistas que beijam a mão de ACM e outros tais, pode? Condenamos eles ao inferno e jogamos no lixo seus CDs?

– E as ONGs que conseguem milhões de multinacionais, pode? Vamos dizer que elas fazem um trabalho maravilhoso e precisam desses financiadores?

– E os partidos ditos de esquerda que ganham milhões “não contabilizados” pode? Vamos votar e eleger seus dirigentes socialistas?

Coerência de quem, cara pálida?

E mais isso e mais aquilo e tudo mais que envolve o problema. O que quero dizer é que cobrar coerência de um cara como o MV Bill, que vai na Daslu lançar o seu livro porque recebe financiamento da dona pra construir sua sede e tocar seu projeto, é exagerado em um país sem coerência alguma daqueles que poderiam tentar dar coerência às suas ações. Ta lá o MV Bill com sua ONG, com grana da Daslu, com sessenta minutos do Fantástico, com o Faustão e tudo mais. Mas tá lá também seu filme dizendo que nada tá sendo feito e que os cadáveres vão se empilhando, e que de alguma forma fazemos de conta que nossa parte estamos fazendo.

Por algum motivo, um dia eu saí dessa. E um monte de maluco que andava comigo não saiu. Às vezes eu penso neles e me parece que tudo foi um sonho. Mas tá aí o MV Bill dizendo que é realidade e que o Alto da Vila Maria de 44 anos atrás é um paraíso perto das quebradas de hoje, seja a Cidade de Deus ou o Capão Redondo ou o Planeta dos Macacos.

Obs: texto publicado na Caros Amigos, sem número.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

PLACA PCR 9161

Sòcrates Santana

A Pista. O Carro. A Placa. O Rapaz. Passa. O Meio-fio.
O Rapaz. Passa. O Meio-fio. A Pista. O Carro! A Placa.
A Placa. Passa. O Carro. O Rapaz. Na Pista. No Meio-fio.
O Rapaz. No Meio-fio. O Carro. Na Pista. Passa. A Placa.
PCR 9161

Nudez

Raiça Bomfim

Afora o homem tudo é nudez.

Debaixo de um céu enorme,
estalando na corredeira,
me ponho afora.

A nudez é anterior à gente
e comum aos outros.

A nudez é anterior...
Mas eu, mulher da cidade,
me dispo.

E tudo parece assombrar-se.

Como houvesse o nascimento
d’algum bicho
ou o retorno da rainha.

Ponho a humanidade
afora
e o mundo estranha.

Mas enfim me reconhece
e segue seu curso

contendo-me em espécie
e pulso
novamente humana,
finalmente humana...

Só existem homens nus.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Escritos sobre a Greve – 11º PARTE

Soul Sócrates

O velho barbudo ainda esboçava uma reação, perante o desespero do menino, que ainda não acreditava no ato pouco provável que realizou contra um homem, quando o mesmo tomou-lhe - em um só golpe - o livro e a vida. O menino subiu calado às escadas do metrô, com os braços sujos de sangue, livro no sovaco, cabeça baixa e um olhar compenetrado, distante dos papéis que voavam na rua para ilustrar a imagem descrita, dos meninos que preparavam mais um coquetel molotove e dos arrepios póstumos de um ancião das palavras inauditas, morto pelo ímpeto juvenil de descobrir a verdade. A atenção dele estava voltada para as frases absortas sobre o peleguismo e a liderança cinzenta que comandava centenas de militantes imaginários espalhados pela grande rede, e que reescreveu a Convenção Das Coisas Importantes Que Não Poderiam Ser Ditas e convocou numa aleatória manhã de um mês qualquer, todas as lideranças e simpatizantes do partido maior com alguns dias de antecedência, distribuindo camisetas, bandeiras, broches, praguinhas, bonés e textos persuasivos sobre a nova era e os novos rumos dos sinistros dirigentes dos sindicatos esquecidos para deliberar encaminhamentos sobre a diretrizes republicanas que deveriam ser adotadas pela renovada composição do diretório de todas as pessoas e nomes. Por isso, na cabeça do menino ainda giravam, como círculos, gangorras, rodas, balanços, espirais e propagandas de cerveja, os métodos usados para garantir lotação máxima no salão onde iria pronunciar o grande baluarte do partido, como os ônibus à disposição dos dirigentes sindicais, os vales combustíveis fornecidos na véspera das prévias extraordinárias para os grandes quadros partidários, assim como a chegada dos manifestantes nas primeiras horas do dia, para, em fila, cada um garantir seu lugar. Tudo muito revisado, organizado, repassado, fiscalizado e minuciosamente registrado no livro de atas da superintendência especial das cerimônias inesperadas da turma do deixa disto.

Escritos sobre a greve - 1º PARTE
Escritos sobre a greve - 2º PARTE
Escritos sobre a greve - 3º PARTE
Escritos sobre a greve - 4º PARTE
Escritos sobre a greve - 5º PARTE
Escritos sobre a greve - 6º PARTE
Escritos sobre a greve - 7º PARTE
Escritos sobre a greve - 8º PARTE
Escritos sobre a greve - 9º PARTE
Escritos sobre a greve - 10º PARTE
Escritos sobre a greve - 11º PARTE

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Notas mínimas

embarque

Katherine Funke

Estava ali na zona de transição entre uma cidade e outra, prestes a embarcar em um avião; ali não era lugar para apegos ou lembranças. Depois do beijo, disse-lhe adeus, deu as costas, sorriu para ver mais uma vez a cara dele, e pensou - não sem pontada de alegria e medo no peito - que uma nova vida iria começar dali em diante.

toda manhã

Katherine Funke

Chove no rosto dela. E no corpo e na bolsa. Carla saiu de casa sem proteção. E de sandália. Agora anda pelas calçadas molhadas, sem marquises para abrigá-la. "Eu não tô nem aí pra morte/não tô nem aí pra sorte/eu quero mais é decolar toda manhã...", ela cantarola, pra si mesma. Arnaldo Baptista era seu herói. Então vai para o trabalho debaixo de chuva, e brinca com os pés com as poças do caminho, e tenta descobrir a temperatura da água testando-a com a língua sobre a pele do antebraço. São 7h30 da manhã, suas sandálias estão cada vez mais encharcadas. Chove no rosto de Carla, e ela sorri.

o importuno

Katherine Funke

Veio correndo inacreditavelmente na direção da fila. Atropelou duas mulheres (uma delas bem jovem e bonita à qual ainda dirigiu um leve gesto de cabeça, em desculpas) e um rapaz. Equilibrava num braço um notebook aberto. Nas orelhas, um fone de ouvido conectado ao celular. E senta-se ali, à beira do embarque na aeronave do vôo 1605, ainda resolvendo seus problemas com a pressa de um jovem empresário.

O que ninguém sabia é que ele só estava no telefone com a mulher, que queria saber, nos últimos instantes, qual tipo de queijo o marido queria no macarrão para jantar. Para isso havia enviado um e-mail com cinco tipos exóticos a serem avaliados em dois minutos. E ele avaliara. Decidira pelo coalho, que nunca comera, porque chegou a Brasil há duas semanas. Definir o cardápio era, de fato, uma questão de urgência máxima, se tivesse a ver com ser atencioso com sua adorada e perfeita Paloma.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Senhoras na Janela


Ismael Teixeira


O sorriso é um crime invertido. E eu. Como qualquer arma de bandido. Alegre. Atiro. Descansou a pena no pote de tinta preta antes de pensar que não era exatamente aquilo que queria enquanto letra. O sorriso é uma arma apontada para cima e ele queria acertar algo mais em baixo. Pisou devagar no chão de madeira . Tinha medo que o barulho pudesse tirar do lugar certas frases. Macio desceu as escadas e bebeu um copo de água imaginando ser um bom vinho. Milagre de um pobre escritor como ele. Após se refrescar, pois apesar do frio aquela noite, sentira seus nervos acelerados. Ascendeu, por fim mais uma vela e se dirigiu novamente à escrivaninha. O melhor sonho é quando sonhamos que somos felizes. Mas engraçado que quando esse sonho torna-se real, achamos que estamos loucos. Esse é um pequeno trecho de um escritor conhecido por guardar flores secas nos bolsos. Onde passava deixava um perfume estranho que provoca um torpor fazendo os passantes sentirem sono. Era visto sempre uma vez, não mais que isso. Escrevia nas janelas dos trens reclinado e pensativo distante dos olhares curiosos e impressionados. Isso fora há muito tempo, quando as pequenas ruas ainda tinham nomes. Ninguém se incomodava com ele, era inofensivo, entretanto, mesmo naquela época se sabia que não havia conversão para os lunáticos. O crime de ser livre sempre será pago com sarcasmo e indiferença. Mas havia os que o admiravam. Apesar de ser visto quase sempre solitário, quando não trocava rápidos diálogos incompreensíveis com anões e artistas de circo, alguns anotavam seus escritos que ficavam nas janelas dos trens como possível forma de faturar alguma coisa no futuro. A vela aquece as mãos enquanto lança uma boa réstia de luz trêmula no ambiente. A tinta preta parecia escrever saudades distantes. E de fato escrevia. O escritor conhecera o escritor dos vagões. Aquele homem tão exótico que ninguém poderia se aproximar se não houvesse em si também alguma aberração. Ao seu lado havia uma flor num pequeno jarro. Era uma flor comum que manchava de violeta as estradas de ferro em determinadas épocas do ano. A cor violeta é usada por mulheres que perderam os maridos. É a cor da lembrança sempre viva de mulheres antigas. A história daquele homem pouco se sabia. Até mesmo o escritor que escrevia sobre a nostalgia de não mais vê-lo. Parecia sim ser muito rico. Não por aparentar riqueza. Pelo contrário. Muita gente granfina ria de seus furões nas calças gastas e no sapato velho. Era, sim, rico, pela postura aristocrática e polida de andar, e dos seus gestos sempre contidos e movimentos delgados. Lembrava um artista mímico e triste, apesar do ar infantil que provocava uma aparência doce sob os trapos. Não fugindo a regra o escritor o viu apenas uma vez. Mas era essa única vez que provocara tanta constrição naquela noite de vozes baixas. Havia desespero naquela tarde chuvosa. Um desespero mudo e paralítico. Ele observara as flores violetas na janela daquele trem semi-escuro. Seus olhos secos haviam se cansado de chorar. Ele chorara agora através da chuva segurando em suas mãos ainda uma carta que não fora aberta. Na carta um pedido, uma promessa. No peito a esperança atada como uma forca em seu coração. Chegara tarde demais. Paralisado não vira um verso escrito na janela. O amor nada mais é que entregar sua vida para uma vida sem vida alguma. O problema de amar é que pensamos que há apenas uma vida. As palavras escritas ainda recentemente fizeram o rapaz levantar e procurar o seu autor. Ele já conhecera a fama do insano das janelas, mas diante do abismo que lhe ocorrera aquela tarde seu apetite era transbordar ainda mais o seu mundo. Procurou no vagão e nenhum sinal. Não poderia ser nenhum daqueles homens e mulheres que simplesmente comentavam sobre as coisas somente depois de serem coisas. Após a parada já descrente e confuso viu alguém assobiando para um passarinho. Nunca pensou que poderia mais sorrir. Então sorriu. Ao se aproximar da cena ouviu ainda de costas o rapaz que dizia: O sorriso é um crime invertido. E eu. Como qualquer arma de bandido. Alegre. Atiro. Depois escreva o resto. Ambos ficaram mudos. Ele continuou assobiando de costas. E o outro ali parado. Notando que o silencio o incomodara falou que tinha perdido o amor de sua vida e que aquela frase da janela o fizera muito bem. Vinha somente para agradecer. Após uma pausa e notando que nada mais iria ocorrer por ali pensou em continuar seu destino. Mas antes de continuar seu destino, falou o maltrapilho, lhe contarei que eu escrevo não para os homens e sim para as violetas. As violetas que nos observam da janela. Somente as violetas acreditam no amor. Assim como as senhoras que já perderam seus maridos. Ao esboçar qualquer reação o maltrapilho avançara sutilmente sobre ele e disse baixinho: Volte para a sua casa e continue a amá-la como sempre amou e verá que a diferença é que o amor ainda não se sentiu ainda. Subtraído pela força das palavras no papel releu o texto ainda úmido de sangue negro. Levantou, e olhando para janela contemplou seu jardim ainda adormecido de pequenas senhoras quase azuis.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A superfície do mercado

Soul Sócrates

O preço determina o valor do quadro, disse. E sem pensar, ainda que tenha, não contrariando uma opinião tão valiosa, acenei com a cabeça, concordando. No instante em que foi dito aquilo, que parecia mais uma sentença do que um conceito econômico, não refleti muito, assim como quem escreve o que não refleti também não fez, apenas escreveu e se lançou ao desembaraçar da retórica escrita; aceitamos juntos, deixando para analisar aquelas palavras depois, ele pensando no que penso sobre tudo e eu pensando no que ele imagina que eu pense ou o que melhor seja para o discorrer do que escreve. O preço determina o valor do quadro, uma sentença, sem dúvida. Algo dito por um homem poderoso, no sentido leiloeiro que pode ser adquirido pela palavra. E era isso que pretendia. Fez a encomenda. “Quero um retrato, mas ninguém deve saber quem é o retratado, nem tão pouco saber quem encomendou”. Ele pedia algo significativamente impossível. Evitar a semelhança de um retrato, como havia de ser possível. Mas sem contestar, aceitei a incumbência, outro faria se eu não o fizesse; e isto, por maior que seja o despautério, era o que doía mais, aceitar fazer algo por pura imposição do mercado. Porque me fizeste tão fraco, perguntei, como se estivesse falando com Deus, mas sei que sou apenas um infinito de sentidos que parecem ganhar vida quando deixam a condição de meros traços escuros no papel para o sobrevoou que ocorre entre a razão de quem escreve e a razão de quem pensa sobre isto. Se assim escrevo, responde quem se inclui por intermédio das palavras, é por um objetivo causistíco, por simples desfecho moral; mas não cabe a ti, personagem, entender o que se vai; aceite, como aceitou pintar um retrato sem que ninguém saiba quem é o da foto. Fiz um esboço, ele olhou e disse que todos saberiam quem é. Outro, mas esse não agradou, pois ele não era aquele. Não ia pagar por um retrato tão distante da imagem real. E o que era oportunismo de mercado, tornou-se um desafio, uma provável obra-prima que nascia antes de ser vista. São situações como essas que nos fazem pensar no número de pessoas que devem estar tentando fazer o mesmo; pintar o retrato invisível de alguém e que isso seja contemplado como uma foto 3x4, símbolo da identificação formal do olhar burocrático. Ao todo pintei 11 retratos e nenhum deles fazia jus a esta reflexão. Mas a encomenda havia sido feita e o dinheiro investido, gasto com pincel, tinta, telas, cavalete, aquarela. O queixo caído do modelo, o nariz arrebitado ao extremo, a boca fina, quase despedaçando, as orelhas miúdas e aqueles olhares obtusos, impunham sobre mim seus formatos, colorações, sombreamentos. Foi quando me veio a frase, sem pudor, pura e seca, feita sem descuido, igual ao parecer de um promotor. O preço determina o valor. Sem demora, dei algumas pinceladas, misturei por ocasião as cores em sobressalto com a luz que cortava o retrato e deslizei o meu polegar sobre a tinta que margeava os lábios da imagem. Deixei a tinta sobre a tela descansando na sombra, também pudera haviam sido horas de angústia, embrulhei e corri até a casa do meu exigente cliente. “Está pronto, mas não pode ser visto por ninguém, apenas eu que sou este que não existe em imagem, mas no decifrar desses caminhos labirínticos que se fazem por linhas de papel. Ele concordou sem pestanejar, como quem comemora a subida repentina das ações na bolsa de valores. Pediu para que eu leve o quadro de volta para o atelier, avisando que irei receber uma ligação. Atendo, é do museu. Vão colocar a peça em exposição e depois realizarem um leilão. Dou-lhe uma, Dou-lhe duas, Dou-lhe três, vendido ao senhor de nariz arrebitado, queixo assim assim e orelhas deste tamanho,por está quantidade de números nunca tão extensos em uma venda.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

DDD

Soul Sócrates

É o senhor Danilo Chaves. Sim. Senhor Danilo, primeiramente gostaria de agradecer pela atenção e dizer que a operadora dois para lá e dois para cá está gravando está ligação. Ok. Concordando com os termos expostos, nós estamos oferecendo para o senhor enquanto cliente em potencial da operadora dois para lá e dois para cá o nosso plano promocional. É que. Então seu Danilo, o nosso plano promocional inclui um saldo ilimitado baseado na sua renda mensal e ao fechar agora conosco, nós também ofereceremos um plano adicional para a sua esposa, que segundo consta em nossos cadastros o senhor é casado e sua esposa está neste momento na rua guilhermino Firmino machado de alcântara silva dos santos e comprou através do seu cartão etc e tal três peças de uma conceituada loja de objetos obscenos. Como é. Na verdade senhor Danilo nós estamos garantindo a entrada da sua esposa neste plano, propondo que o senhor faça uma surpresa. Com licença querida.
Só atendi a ligação porque a minha esposa realmente está viajando e por uma imensa coincidência, o DDD era o mesmo.

O homen de areia

Samir Machado de Machado

Acordou com o sol batendo em seu rosto. Desorientado, não tinha a mais vaga idéia de onde estava ou como fora parar ali. Sentia a areia do deserto em suas mãos, grudada nos cabelos e impregnando suas roupas. Quando se levantou, não soube dizer se estava enfraquecido pela sede ou se ficara mais pesado do que de costume, mas foi com muito esforço que conseguiu fixar-se sobre as duas pernas e observar, à sua frente, as dunas repetirem-se monótonas até o horizonte.

Erguer o braço até a altura do rosto foi outro enorme esforço para ele. Mas só assim percebeu que, onde antes havia minúsculas estrias de pele humana, agora havia pequenas ondulações. Tocou a própria face e sentiu-a áspera como pedra, o próprio toque provocava uma fricção. Quando o vento ficou mais forte, os grãos começaram a se desprenderem da ponta dos dedos, desenhando filetes de areia no ar. Nesse momento, sua visão se expandiu, estando onde cada grão de areia de seu corpo estivesse. Em segundos, o vento desfez sua mão e ele não sentiu nada.

Apenas sede.

Embora não houvesse dor, mantinha a sensibilidade de cada parte de seu corpo, mas agora esta noção de si próprio se alargava. Cada grão levado pelo vento era sua extensão, ele via o que cada grão via, e sentia-se cada vez maior. Infelizmente, manter os pensamentos em foco era uma dificuldade crescente. Viu no horizonte alguém se aproximando. Tentou gritar por ajuda, mas a voz não saiu.

O vento ficou mais forte, e já sem os braços para manter o equilíbrio, foi derrubado para trás. Seu corpo caiu e se desmanchou. Pouco a pouco, o que restava de suas feições e sua forma foram sendo desfeitos e se misturando ao deserto. Sua visão tornou-se tão ampla que via cada canto do deserto, sua percepção cresceu até tornar-se o próprio deserto.

Mas ainda tinha sede.

Contudo, o local onde seu corpo caíra ainda concentrava a maior parte de sua consciência e de seus grãos, que nunca se misturavam totalmente à areia do deserto, pois possuíam uma densidade maior, eram mais macios. Ali, ele esperava, sedento. Podia sentir quando um viajante se aproximava, sentia pisarem sobre seus grãos. O viajante viu atiradas ao chão as roupas que um dia cobriram o corpo de alguém, e correu até elas. Sem ter consciência de outra presença, caminhou para próximo do centro, e ali afundou. O Homem de Areia o abraçou e o puxou para baixo, e quanto mais a presa se movia, mais afundava, sendo aos poucos soterrada, a areia entrando por seus olhos, ouvidos e boca, o envolvendo e o devorando, arrancando dos ossos a carne e da carne o sangue, pois o corpo humano é água, e ali alguém tinha sede. Que, por um tempo, foi saciada. Mas logo voltaria.

Então era preciso esperar.

Concretos

Renata Belmonte

Era cidade e era noite. E estava sentada observando a janela, tinha terminado o serviço mais cedo, coisa que, raramente, acontecia, tinha se casado com um homem distinto e de muito bom gosto que não se satisfazia com qualquer coisa, por isso não podia deixar nada com a empregada. Os cabelos continuavam molhados, posso ficar resfriada, repreendeu a si mesma como se estivesse falando com um dos seus filhos, quando estes ainda eram crianças. Mas, a pequena liberdade falou mais alto e foi invadida por uma espécie de sensação que faz a gente imaginar que está dirigindo um conversível com o vento a bater no rosto. Orgulhosa, pensou: Enfim, consegui me lavar, antes de meu marido chegar.

Com a medalha no peito, passou a observar a janela, já que ainda não estava na hora da novela. Constatou: a janela é como uma televisão, só que mostra a realidade. E, naquele dia, as estrelas tinham se escondido em seus apartamentos, o céu estava escuro, iluminado apenas pelos pontos de luz constantes nos edifícios. Pensou: todos estes focos substituem as estrelas. Continuou: neste universo, eu também sou uma estrela, pois meu abajur brilha no escuro. Estava tudo indo muito bem, de fato, gostava da paisagem que via: prédios muito altos, asfalto, noite fechada. Descobriu: a janela revela a cidade e eu nada mais sou do que o espelho dela. Sabia ser firme, rígida, paradoxalmente acolhedora e assustadora. E tinha a sorte de morar no último andar. De cima, podia apreciar a cidade e ver os vizinhos chegarem sem ser vista. Como Deus pode fazer. Satisfeita, perguntou-se: se minha vida é perfeita como esta paisagem do que eu poderia reclamar? A resposta estava vindo em forma de negativa, até receber o primeiro golpe: foi enforcada com sua própria corrente, a mesma que sustentava a medalha de ouro, a pouco, conquistada.

Desça do pódio, ele não mais lhe pertence.

Esta é a pior parte da vida: tudo muda muito de repente.

Um pequeno balão vermelho.

Um pequeno balão vermelho, desses de aniversário de criança.

Um pequeno balão vermelho, desses de aniversário de criança, cruzava os ares, devagar e solitário.

E este pequeno balão vermelho, desses de aniversário de criança, teve a ousadia de passar pela sua janela e manchar sua paisagem. E este pequeno balão vermelho, desses de aniversário de criança, teve a audácia de destruir seu raro momento de paz e felicidade. E este balão vermelho, desses de aniversário de criança, nada mais era do que um terrível inimigo da cidade. Decidiu: preciso acabar com este intruso, com este pequeno balão vermelho. Basta uma agulha, igual a que a mãe de Branca de Neve se machucou.

E esta é uma das coisas mais estranhas da vida: em um segundo, se consegue pensar em zilhões de coisas.

No último pensamento, do penúltimo parágrafo, o tempo parou.

Você é uma assassina. Matou sua mãe e, agora, é a vez do pequeno balão vermelho.

Eu não matei minha mãe. Ela morreu, aos oitenta e cinco anos de idade.

Você é uma assassina. Começou a destruir sua mãe, desde o dia em que nasceu: perfeita, como uma boneca. Você sempre percebeu as dúvidas dela quanto à sua própria aparência. Você sempre soube do medo que ela tinha de ser trocada por outra mulher. E o que fez? Você virou a outra mulher.

Eu não tenho que me desculpar pelo amor que meu pai sentia por mim. Nós tínhamos muitas afinidades, o que não acontecia entre nós duas. Ela nunca me amou.

E as estórias que ela lhe contava, antes de dormir? E os vestidos que ela costumava costurar? Isso é falta de amor?Você não passa de um ser humano desprezível.

Eu não me importo com opiniões levianas a meu respeito.

Claro que você não se importa! Você só consegue olhar para o seu nariz! Desconhece a existência do outro. Como ignorava a tristeza de sua mãe.

Eu não me importo com nada do que diz. Sei que existem pessoas que pensam de forma diferente a meu respeito.

Quem? Seu marido? Convenhamos, ele nunca lhe amou. Você é esperta demais para não perceber que você não passa de uma empregada de luxo, equipada com as duas melhores qualidades: beleza e inteligência. A beleza para deixá-lo excitado, para se gabar com os amigos. A inteligência para divertir os parentes em ocasiões formais. Quem? Os filhos? O menino mudou-se para o exterior. Nem liga no seu aniversário. A menina detesta os seus palpites, acha você mandona e intrometida.

Meus filhos não pensam isso de mim, tenho certeza, meus filhos não pensam isso de mim.

E o que você fez? Virou a outra mulher. A pequena notável, a superperfeita. Linda, inteligente, espirituosa. A melhor aluna do mundo. A primeira a acordar para ser a primeira a se sentar na primeira cadeira da primeira fila da sala de aula. A que todos queriam namorar, casar. Mas, você não queria um dos meninos da sua idade. Você queria seu pai.

Isto é um absurdo. Eu não queria namorar os meninos da minha idade porque eles não passavam de uns tolos, uns bobos. E você não sabe o peso que era ser a melhor em tudo. Todos os dias, eu acordava já cansada. Nada podia ficar fora do lugar. Eu tinha que estar sempre linda, feliz, corretamente maquiada. Eu tinha sempre que tirar as melhores notas do colégio, ler sempre os textos em voz alta.

Que pena, tudo isso para se tornar uma empregadinha de playboy burguês. Você sabe: seu marido não trabalha. Finge que vai ao escritório, finge que está estressado apenas para não se sentir deslocado, neste novo tempo. Você sabe: ele está atrasado porque está com a amante.

Lucy não é amante dele, ela é minha melhor amiga.

Não finja que se importa. Você gosta desta situação. Prefere ele longe de casa, tem nojo de ser tocada por ele. Você queria seu pai. E, como não conseguiu, acabou se casando com um homem mais velho.

Eu sempre fui apaixonada pelo Jorge, independente de sua idade.

Apaixonada? Não me faça rir! No dia do seu casamento, suas lágrimas eram de puro desespero.

Sim, eu estava assustada, toda a minha vida iria mudar, eu não sabia como as coisas iriam acontecer...

Você queria seu pai. Você queria seu pai. Você queria seu pai. Você queria seu pai. Você queria seu pai.

Sim, eu morro de saudades de meu pai! Ele foi o único homem que soube me proteger! Mas isso não significa que eu queria roubá-lo de minha mãe!

A pequena notável, a superperfeita. Linda, inteligente, espirituosa. A melhor aluna do mundo. A primeira a acordar para ser a primeira a se sentar na primeira cadeira da primeira fila da sala de aula. A que todos queriam namorar, casar. Você era assim para magoar sua mãe, para demonstrar a sua imperfeição.

Não! Eu era assim, justamente, pelo contrário. Queria que ela me amasse, queria que ela me admirasse como as outras pessoas me admiravam. Queria que ela me fizesse elogios, queria que me levasse às lojas para fazer compras.

Você é uma assassina. Começou a destruir sua mãe, desde o dia em que nasceu, assim como fez Branca de Neve com a mãe. E é com a mesma agulha que você, espelho meu, vai matar o pequeno balão vermelho. Você tem inveja de sua estrutura, de seu desprendimento. Não consegue suportar algo mais belo que você. É uma Bruxa vestida de Branca de Neve, é uma Branca de Neve Bruxa. Você não consegue admitir a existência de algo que não lhe obedeça, que fuja ao seu controle. Na verdade, você se sente acuada, sufocada, presa entre os pequenos espaços existentes entre os edifícios, amedrontada pelas as estruturas rígidas da cidade. Como um rato.

Pensou: em que espaço viver, senão, na cidade?

Não se esqueçam: o pequeno balão vermelho, desses de aniversário de criança, ainda cruzava os ares, devagar e solitário.

Pensei: inevitável que queira voar, que se junte a ele.

Desisti: prefiro não fazer escolhas.

Uma medalha partiu-se no chão. E o tempo voltou a passar.

Fim do caminho

Renata Belmonte

Andava pela rua e a canção a acompanhava. Os outros transeuntes não pareciam ouvi-la, caminhavam em passos apressados. “É pau, é pedra, é o fim do caminho”. Seu destino ainda não era certo, não sabia se iria conseguir chegar. “Se tenho coragem de tomar banho pelando, imagina do que sou capaz”, pensou num tom de quem queria deixar claro de que estava segura de sua decisão.

Despejava sorrisos largos por cada metro por que passava. Nem sempre eram bem aceitos. Alguns a olhavam com a dureza de quem precisa de um tempo para aceitar o inesperado. As crianças gargalhavam, misturando suas crueldades infantis com curiosidade. A mendiga da esquina, esticou a boca repleta de dentes podres e piscou o olho.

“É promessa de vida em meu coração”. O mar nunca tinha estado tão azul. Parecia que o céu tinha lhe dado este presente. Não que ela fosse acreditar em suas próprias ilusões. Sabia que todos poderiam até saber, que aquele era o dia do seu aniversário e que era pisciana, mas a certeza de que não se importariam era maior. Ninguém tinha tempo a perder com bobagens astrológicas. Suas vidas tinham que ser uma sucessão imediata de fatos para que fizessem algum sentido. O ideal é que pouco se tenha tempo para pensar, pois é o pensamento que induz ao erro. É antinatural ficar racionalizando as coisas. Os bichos não perdem tempo com idéias tolas e vivem seus destinos pela intuição. Pouco erram. Vão aonde devem ir. “Só vou parar quando meus pés não mais agüentarem, ou quando chegar ao fim do caminho”, disse para si mesma, decidida.

Procurava, com cada passo, sua verdadeira libertação. A brisa soprava em seu rosto, levemente, enquanto seus cabelos misturavam-se incoerentes. Já sentia abandonados seus sentimentos antigos, já confortáveis. Por quilômetro percorrido, ia tornando-se uma santa. Seus pequenos detalhes sujos, como a mania de roer unhas e as mentiras que contava para a prima rica, tinham se tornado parte do passado. Estava tão limpa e pura quanto um bebê que acabou de nascer.

Tinha nos quadris, talvez por influência rítmica da canção, um movimento tão gracioso quanto os da Garota de Ipanema. Nunca tinha sido garota de nada. Viveu uma vida que foi arrumada contra ela. Até antes de sair de casa, tinha sido difícil para alguém guardar em mente seu nome. Era mais uma no meio de infinitos irmãos. Tentou evitar, durante toda a vida, que perguntas existenciais viessem à sua mente. Preferia não saber quem era, a ter a dor de mais uma decepção.

“É pau, é pedra”. Sempre amou aquele colar de pérolas que tinha no pescoço. Dizem que pérolas, quando não usadas, tornam-se envelhecidas. Suas pérolas eram a única coisa verdadeira que teve. Sempre lhe fizeram companhia. Não ficariam velhas, se dependesse dela. Logo, iriam juntas para o lugar de onde vieram.

Não mais se incomodava com os risinhos insolentes que percebeu durante o caminho. “É promessa de vida em meu coração”. Seu corpo completamente nu se arrepiou todinho de excitação. Estava perto de experimentar o começo de tudo. ”É o fim do caminho”. O fim para ela representava um novo começo, uma nova chance. Respirou fundo e pulou, do alto do morro, em direção às águas azuis de março, que fecharam sua vida e o verão.

Portuário

À Teresa Farias

João de Moraes Filho

Tudo faz do tempo criança,
sorrindo. Nada impera
ou recria por trás da janela.

Acreditar no tempo é colher jardins.

Tempo fechado nos olhos;
sobrevive ao fogo, corre
nos quintais e nada espera.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Escritos sobre a Greve - 10º PARTE

Soul Sócrates

A página amassada entre os dedos trêmulos do menino de braços ensanguentados ainda tilintava as palavras contidas na garganta arranhada do velho barbudo, que olhava taciturno para este evidente resquício de culpa que a história esqueceu de apagar das folhas revolucionárias de um livro que marcou a maior greve de todos os tempos - tempos que as ruas tinham outros nomes e que não foram registrados pelo google, porque, esse último ainda não existia e as pessoas não marcavam mais os seus encontros através de pontos de referência, mas via msn. Na página estava escrito o seguinte, justamente a sequência deste ensaio, a descrição do peleguismo, a mudança de oito para oitenta, a reinvenção das classes sociais, a inversão dos valores. Na página estava escrito a fundação do primeiro sindicato formado por patrões, que numa única jogada unificou todos os outros sindicatos e extinguiu definitivamente o direito de greve da constituição maior deste estado nação localizando entre o sul e o norte.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Água morna

Ismael Teixeira

O último ponto fora escolhido, mas era como se não findasse. Algo escorria à deriva. Algo que ninguém ouvia; ninguém calava. O início do conto começava bem. Falava sobre os mares do deserto. O sabor salgado da solidão das dunas, dos ventos que ricocheteiam fios de cabelo na face aventurada. Pensei como de fato o inferno seria senão a possibilidade de se tomar qualquer direção quando só se tem um horizonte sem fim. Até mesmo a cidade só é fácil para aqueles que sabem para onde ir. Existe um sol para cada homem, e o texto narrava àqueles passos no deserto. Aquelas centenas e milhares de pegadas não eram somente uma cena chocante aos meus olhos mas a própria interrogação que separava o porquê de uma resposta clara. Cada passo fora descrito como se o pensamento abandonasse o corpo do passante e ficasse ali, prostrado na areia quente. A linha cobria mesmo uma vastidão, e apesar de comovente pouco entendi o sentido da sua direção. Pude ali ler diante do sol escaldante amores, desejos, medos, passagens minuciosas passadas para trás. O conto era de um autor pouco conhecido e mesmo antes de acabar de lê-lo fui pesquisar algo a seu respeito. Pouca coisa havia, no entanto, uma informação perdida me chamara atenção: apesar de ter boa formação e esposado bem uma madame da alta sociedade adquirindo uma bela família um dia simplesmente desapareceu alegando viagem à negócios para nunca mais retornar. Esse conto, porém, foi encontrado anos mais tarde em um continente distante ao lado de mapas e alguns poemas de sua autoria – únicas pistas a seu respeito. O mais curioso foi que a pesquisa mencionava pouco sobre seus poemas. Todos continham a palavra lágrima. O conto, porém, seguira seco, descrevendo a paisagem desértica como o estado da alma humana, que apesar de bússolas e mapas sempre há onde se perder e onde se achar. A prosa talvez seria a vida enquanto a poesia o sonho? Entre um passo e outro o leitor era arrastado para dentro de si mesmo e obrigado a reconhecer os pensamentos do andarilho como os seus. A tarefa, contudo, era árdua, pois apesar de obrigados a catarmos como se fossem nossos também teríamos que andar mais adiante sem cessar. Não se fazem mais textos como os antigos, principalmente esses que caminhamos junto com eles. Cansado, descobri que não só tornara um andarilho como também não sabia para onde iria apesar de um pensamento me levasse sempre a outro pensamento num prosseguimento ininterrupto e sem fim. Pensei nos meus empregos, nos meus amores, em algumas moradas, pensei em quantos fui, em quantos ainda serei. Mas, no fim o conto não concluira qualquer parecer. Não definira uma parte da vida como se ela fosse algo fácil e desvendável, ou mesmo misterioso e profundo. Senti, com isso, um aperto forte, e confesso enfadado: que conclusão tomar? Depois da viagem o autor somente deixara ao leitor uma sutil proposta. O texto, sem título, deveria ser nomeado. Lembrei então de sua vida e voltando para a minha pensei nas lágrimas. A diferença é que apenas pensei.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Todos os crimes são por amor

Ismael Teixeira


Sinatra amanhecia no bairro. O som ainda não tinha dormido. Aquele choro de lobo embalava outros lobos com mensagens coloridas que estouravam no ar. Ele na janela fumava um Carltron vermelho do bar mais próximo. Bebia um suspeito Nescau embebendo o filtro de açúcar. Sem saber deixaria uma possível pista para qualquer detetive de madame mal amada. Os bons detetives não são aqueles que sabem resolver um caso conjugal. A foto é sempre uma mentira e como o amor são além das fotos. A janela turvava a melhor luz do dia. Aqueles que amanhecem com o dia vivem mais e melhor. Que ironia. Seu corpo estava estático. Apenas o braço movimentava-se monótono em cada baforada. Sua mente parecia pairar nas últimas estrelas que contemplavam também o nascer do sol, mas não estavam. Aquele olhar parado. A boca semi-aberta. Os dentes quase próximos me cheira ou parecem lembranças máximas. Lembranças de plástico. Aquelas que o cérebro mastiga como um bom chiclete de infância. Anotei em minhas notas. A casa parecia desarrumada, mas também parecia ter sido uma arrumação como se alguém quisesse se esconder nela. O cinzeiro ao seu lado nada tinha de suspeito além de uma boa noite com alguém. Chocolates, flores amarelas e comidas orientais.O vinho não tinha acabado mas interrompido por um lapso de amor. As taças ainda guardavam as bocas e o apetite. O cabelo preso, a cara miúda entre os pêlos. As mãos pequenas que escreviam delicadamente. O sol já fazia sombra e a escuridão do caso persistia. Entretanto, quem conhece a noite sabe que quando as coisas pioram é que aparece alguma visita. No chão ao lado do criado mudo havia uma carta. Parecia ter sido escrita a pouco, apesar de ser uma carta velha. Não a quis tocar. Agachei com cuidado e li sem me mover. A carta parecia uma confissão. E fora escrita em cima de outra autêntica. O primeiro trecho fora escrito com letras rápidas, atrapalhadas e compulsivas. Muitos verbos não deixavam parecer nada além de culpa. A confissão não tinha lógica. O crime fora passional. Toda culpa é uma idéia tenebrosa que aconteceu e a autora, mulher de trinta anos escrevia somente devido a mulheres de trinta anos esquecessem o que é o amor. O outro trecho era uma saudade. Citava Vinícius e Van Gogh para mostrar toda a inocência e loucura que é tremer o amor. Uma carta doce, apesar de velha. Parecia ter escrito em papel de carta. Essas coisas que não vendem mais. Corações pequenos saiam dos olhinhos de pequenos ursos apaixonados que se abraçavam numa só bola de pêlos. Confesso que diante da ternura quase derramei algumas lágrimas. Malditas lágrimas que mancham a imagem de homem durão como eu. Lágrimas descuidadas podem pôr fim ao caso e acabar com a carreira de qualquer chefão. Holmes uma vez me relatou um caso parecido com ele. Cocei a barba e ele continuava lá. Agora somente mais parado. Tranqüilo, ao som daquela mais elegante gravada com um Jobim e outro ainda mais elegante ascendi um cigarro e olhei pela última vez àquele rapaz. Nada além me ocorreu. Apenas um olhar diferente. Esses casos não são tão difíceis, mas indubitavelmente me obriga a crer ou não na verdade. Mais do que um homicídio mais bárbaro a solidão da cadeia é muito mais clara e legítima. As restrições, a violência e o inferno do cárcere são óbvias demais para um crime que não há culpados. A morte não tem sangue. A palidez, o frio não tem paz. Ele agora estava deitado, parecia dormir ainda mais pálido e apenas eu sabia o porquê.

Outono de um antigo quintal

Ismael Teixeira

Caio folhas no quintal dela. Penso que são minhas. As cores, gangorras, circo que fazíamos para não dormir à tardinha. Fim de tarde que crescia crescia nossos imensos corações tão pequenos. Caio folhas uma, uma. Descartando lembranças velhas como uma rosa seca que o namorado um dia colocou num livro. Amarelas, vermelhas, marrons. Páginas destacadas de um livro morto. De um só leitor. Vejo-as daqui de cima como olhamos a chuva da janela. Mas a dor do amor as vezes é lenta. E essas gotas secas vão planando leves, levadas pelo acaso, complacentes ao seu destino, simplesmente dançam uma lenta e triste música que ninguém pode ouvir sem ter cansaço. Aquele quintal já foi verde. As flores tinham mais cores, principalmente as margaridas, que de tão alegres e vivas as meninas que passavam não resistiam o ciúmes e diziam: que atrevidas!! O chafariz saia água de um anjinho gordo e que de tão gordo um dia desequilibrou e tibum na água para a zombaria dos passarinhos. As pedras. As pedrinhas brancas viravam corações e brincadeirinhas, e as janelas? Ah.. as janelas eram pintadas à guache e purpurinas. Agora, depois de tantos ventos, chuvas, sóis. Somente vejo o chão se encher de minhas lembranças. Coloridas lembranças que vão ficando secas, pasteis, como um pôr-de-sol em dia nublado. O balanço, a grama, nada parece mais escrever por aqui. Os versos sorrisos encabulados como se não mais conhecessem. Abraços distantes como se esquecessem como eram os abraços. Mas. Depois de tanto tempo. Eu, árvore velha usada sei que amor de verdade se faz de graça. E quando passa, agora, tão indiferente e ocupada, ao menos pisa em minhas lembranças mesmo que não sejam. Nada.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Uma outra ordem do discurso

ISsssMmMmael TTTTeeeeEEeeiiiIIxxxxXXXeiiiRRRrraaAAaa

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