sexta-feira, 12 de setembro de 2008
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Na fila com João
Sócrates Santana
A vitrola toca João Gilberto. As pessoas sentam e escutam. Ainda há movimento. O burburinho, os beijos frívolos, os abraços desengonçados. O teatro está lotado. As pessoas sentam e escutam a vitrola de João. Um raio de luz emudece o público. Desligam a vitrola. O palco apagado pela escuridão reaparece. Um violão. Ao centro. E só. Aos poucos o silêncio prevalece. Um murmúrio ali, um tropeço acolá. "Vai começar", alguém arrisca. Um novo raio de luz. Uma cadeira. Logo ao lado do violão. A expectativa aumenta. As mulheres, todas elas, ainda se acomodavam nas poltronas. Mais um rastro de luz. Eis um microfone: "Só falta o João", certamente teriam dito, caso o João não surgisse entre aplausos e assovios. Agora era o João quem sentava e escutava o que antes dele estava vazio. O João carioca, nova-iorquino, parisiense, japonês seria agora, o João de todos.
Era tudo um sonho. Um devaneio ensolarado de um jovem de 26 anos, que acreditava na democracia das filas. Afinal de contas, a lógica é simples, desde criança aprendemos: "Quem vai chegando vai ficando atrás". Mas, a fila não andou. Um "palpite infeliz" de meu pai, coitado. "Pode ir filho. Tem ingresso para todos. Lá no Rio de Janeiro até Caetano e Gil tiveram que pegar fila, não vai ser diferente por aqui". É pai, velho Bira Santana. Não será desta vez que iremos ouvir - juntos - o João.
Só não entendo por que Madame mudou de uma hora para outra. Nunca gostou de samba, nunca levantou um único viaduto para o João. Por que, logo na minha vez, ela resolve assistir um espetáculo do João. No tempo da crítica de rádio, Magdala da Gama de Oliveira, o "samba" era "música barata, sem nenhum valor". Jamais correria o risco de enfrentar uma fila por sete horas - nove dias antes do espetáculo - e ficar sem o bilhete. Resta sonhar com uma nova apresentação, quem sabe em um novo teatro com o nome João Gilberto. Afinal são novos tempos, tempo do governador bossa nova.
Quem sabe um belo teatro. Na bilheteria, uma estátua de bronze, que faz companhia para quem ainda tenta comprar ingressos. Óculos de aro, testa franzina, terno de linho e violão no colo. No salão, a discografia completa da obra deste nobre cidadão de Curaçá. Uma série de painéis expõem momentos marcantes da sua carreira em vídeo. Em vitrines espalhadas pelo corredor, podemos contemplar violões doados pelo próprio João para a exposição. No palco, um microfone único para as apresentações: o microfone AKG 414. Mas, talvez esteja "sonhando, sonhando mil horas sem fim". Porque, fiquei com cara de tacho naquela fila, com "gente passando sorrindo, zombando de mim".
* Sócrates Gomes Pereira Bittencourt Santana é jornalista e estava na fila do TCA no último dia 26 de agosto desde as 5h.
A vitrola toca João Gilberto. As pessoas sentam e escutam. Ainda há movimento. O burburinho, os beijos frívolos, os abraços desengonçados. O teatro está lotado. As pessoas sentam e escutam a vitrola de João. Um raio de luz emudece o público. Desligam a vitrola. O palco apagado pela escuridão reaparece. Um violão. Ao centro. E só. Aos poucos o silêncio prevalece. Um murmúrio ali, um tropeço acolá. "Vai começar", alguém arrisca. Um novo raio de luz. Uma cadeira. Logo ao lado do violão. A expectativa aumenta. As mulheres, todas elas, ainda se acomodavam nas poltronas. Mais um rastro de luz. Eis um microfone: "Só falta o João", certamente teriam dito, caso o João não surgisse entre aplausos e assovios. Agora era o João quem sentava e escutava o que antes dele estava vazio. O João carioca, nova-iorquino, parisiense, japonês seria agora, o João de todos.
Era tudo um sonho. Um devaneio ensolarado de um jovem de 26 anos, que acreditava na democracia das filas. Afinal de contas, a lógica é simples, desde criança aprendemos: "Quem vai chegando vai ficando atrás". Mas, a fila não andou. Um "palpite infeliz" de meu pai, coitado. "Pode ir filho. Tem ingresso para todos. Lá no Rio de Janeiro até Caetano e Gil tiveram que pegar fila, não vai ser diferente por aqui". É pai, velho Bira Santana. Não será desta vez que iremos ouvir - juntos - o João.
Só não entendo por que Madame mudou de uma hora para outra. Nunca gostou de samba, nunca levantou um único viaduto para o João. Por que, logo na minha vez, ela resolve assistir um espetáculo do João. No tempo da crítica de rádio, Magdala da Gama de Oliveira, o "samba" era "música barata, sem nenhum valor". Jamais correria o risco de enfrentar uma fila por sete horas - nove dias antes do espetáculo - e ficar sem o bilhete. Resta sonhar com uma nova apresentação, quem sabe em um novo teatro com o nome João Gilberto. Afinal são novos tempos, tempo do governador bossa nova.
Quem sabe um belo teatro. Na bilheteria, uma estátua de bronze, que faz companhia para quem ainda tenta comprar ingressos. Óculos de aro, testa franzina, terno de linho e violão no colo. No salão, a discografia completa da obra deste nobre cidadão de Curaçá. Uma série de painéis expõem momentos marcantes da sua carreira em vídeo. Em vitrines espalhadas pelo corredor, podemos contemplar violões doados pelo próprio João para a exposição. No palco, um microfone único para as apresentações: o microfone AKG 414. Mas, talvez esteja "sonhando, sonhando mil horas sem fim". Porque, fiquei com cara de tacho naquela fila, com "gente passando sorrindo, zombando de mim".
* Sócrates Gomes Pereira Bittencourt Santana é jornalista e estava na fila do TCA no último dia 26 de agosto desde as 5h.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Guerra n’água, nossa irmã
Raiça Bomfim
Vai coser vestes de mar
Tacar o remo na muralha
Inundar esses regaços
Salgar a língua deles tudo
Botar fé no que rebenta
E se atrever
- a roda, o amor, a lida -
Puxa a isca da sede e simbora
Fazer sol
Todo suor nos requisita
Vai coser vestes de mar
Tacar o remo na muralha
Inundar esses regaços
Salgar a língua deles tudo
Botar fé no que rebenta
E se atrever
- a roda, o amor, a lida -
Puxa a isca da sede e simbora
Fazer sol
Todo suor nos requisita
O agora
Katherine Funke
Metrô, o navio negreiro, aporta na estação. Din-don, as portas abrem para o mundo. Sair. Escadas. Mais escadas. Uma gota de suor desliza pelo lado direito da testa, rumo ao pescoço. Relógios marcam meio-dia; o sol quente faz tremeluzir o brilho do asfalto. Edson caminha louco de fome e de sede até seu micro-esconderijo no oitavo andar. Sobe um perfume de pastel de carne no caminho do prédio - um, dois no saquinho plástico - almoço barato. Edson dá cinco reais, o vendedor devolve um e oferece um refri de brinde. Maravilha. Sorrisos, obrigado, eu que agradeço, até. Elevador chega. Chave na porta. Senta no sofá. Come os pastéis. Deita para um cochilo. Está feliz e pensa: "Sentir o agora - e só". E cochila até as duas.
Metrô, o navio negreiro, aporta na estação. Din-don, as portas abrem para o mundo. Sair. Escadas. Mais escadas. Uma gota de suor desliza pelo lado direito da testa, rumo ao pescoço. Relógios marcam meio-dia; o sol quente faz tremeluzir o brilho do asfalto. Edson caminha louco de fome e de sede até seu micro-esconderijo no oitavo andar. Sobe um perfume de pastel de carne no caminho do prédio - um, dois no saquinho plástico - almoço barato. Edson dá cinco reais, o vendedor devolve um e oferece um refri de brinde. Maravilha. Sorrisos, obrigado, eu que agradeço, até. Elevador chega. Chave na porta. Senta no sofá. Come os pastéis. Deita para um cochilo. Está feliz e pensa: "Sentir o agora - e só". E cochila até as duas.
Avenida Paralela
Sócrates Santana
A cidade é quente e passageira na Avenida Paralela. Nela as pessoas são objetos, os carros sujeitos. Trocam de lugar quando um corpo está no chão e o capô sujo de sangue. Ao redor uma cortina de outdoors encobre a tragédia dos condomínios fechados. Sem pessoas nas janelas, a cidade não sorri. Não vê as encruzilhadas, os carros pretos e o poder que circunda os urubus. Não vê a carniça, a macumba e os cães que ladram mais não mordem. A cidade é passageira na Avenida Paralela. A vida é efêmera, a paisagem é uma vitrine e as pessoas, as pessoas, as pessoas...morrem e param o trânsito.
A cidade é quente e passageira na Avenida Paralela. Nela as pessoas são objetos, os carros sujeitos. Trocam de lugar quando um corpo está no chão e o capô sujo de sangue. Ao redor uma cortina de outdoors encobre a tragédia dos condomínios fechados. Sem pessoas nas janelas, a cidade não sorri. Não vê as encruzilhadas, os carros pretos e o poder que circunda os urubus. Não vê a carniça, a macumba e os cães que ladram mais não mordem. A cidade é passageira na Avenida Paralela. A vida é efêmera, a paisagem é uma vitrine e as pessoas, as pessoas, as pessoas...morrem e param o trânsito.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Olhos de cão azul
Gabriel García Márquez
Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: "Isso. Já não o esqueceremos nunca". Saiu da órbita suspirando: "Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.
Leia na íntegra:
Gabreil Garcia Márquez
Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: "Isso. Já não o esqueceremos nunca". Saiu da órbita suspirando: "Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.
Leia na íntegra:
Gabreil Garcia Márquez
O conto da ilha desconhecida
José Saramago
Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar.
Leia o conto na íntegra:
José Saramago
Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar.
Leia o conto na íntegra:
José Saramago
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