Ismael Teixeira
Oh o quão tarde agora fico
O meu amor que de tanto rodar virou disco
A resmungar baixinho numa vitrola cansada
O mesmo refrão de uma antiga canção perdida
Assim como as rosas são corações que partiram
O meu também se guardou e foi sumindo
Até que no último final de toda a vida
Adormeceu numa caixa de bombons de teu preterido.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Amores incolores
Soul Sòcrates
- Já são vinte e três horas!
Ted estava atrasada. Havia marcado um encontro. Ele tinha olhos brancos, cabelos brancos, pele branca e uma mente vazia. Era o que Ted queria. Um garoto sem nada na cabeça. Dobrou o chão, a mesa e colocou tudo nos lençóis da cozinha. Estava atrasada. Não tinha espaço para pensar demais. Andava como se estivesse com raiva do colchão. Cada passo era como um murro. Engraçado. Ele não sentia nada.
- Será que Lia não vem de novo? Não sabia como, mas sem porque Ted perguntava enquanto acariciava uma bermuda amarela, cheirosa, que tinha acabado de sorrir para o dia.
Meia atabalhoada com as mãos, pareciam amarradas, Ted corria contra o espaço . Logo viu Lia. Parecia um vácuo. Estava lindo.Deitado sobre o colchão azul do laboratório, Lia brincava com a pequena bermuda. Ou era a bermuda que brincava com ele?
Os dois se entreolharam. Havia um tempo entre os dois que os separavam. Resolveram ficar parados. Viraram as cabeças para se verem melhor. E foi assim durante dois milímetros. Em cima da porta Ted pensava:
- Não basta tocar, é preciso ver para amar alguém. E o vejo tão claramente. Meus olhos ficam ofuscados com tamanha luminosidade. Amo Lia.
Sobre o invisível Lia também esboçava seu rascunho. Não pensava. Apenas comparava diante da tevê Ted com um lápis. Foi quando o dono da cadeira que lia alugava gritou, soprando a brancura de Lia para longe dali:
- Lia! Saia de cima da porta. Procure um emprego. Arrume uma cozinha para pôr algo dentro e saia. Apareça menino!
- Já são vinte e três horas!
Ted estava atrasada. Havia marcado um encontro. Ele tinha olhos brancos, cabelos brancos, pele branca e uma mente vazia. Era o que Ted queria. Um garoto sem nada na cabeça. Dobrou o chão, a mesa e colocou tudo nos lençóis da cozinha. Estava atrasada. Não tinha espaço para pensar demais. Andava como se estivesse com raiva do colchão. Cada passo era como um murro. Engraçado. Ele não sentia nada.
- Será que Lia não vem de novo? Não sabia como, mas sem porque Ted perguntava enquanto acariciava uma bermuda amarela, cheirosa, que tinha acabado de sorrir para o dia.
Meia atabalhoada com as mãos, pareciam amarradas, Ted corria contra o espaço . Logo viu Lia. Parecia um vácuo. Estava lindo.Deitado sobre o colchão azul do laboratório, Lia brincava com a pequena bermuda. Ou era a bermuda que brincava com ele?
Os dois se entreolharam. Havia um tempo entre os dois que os separavam. Resolveram ficar parados. Viraram as cabeças para se verem melhor. E foi assim durante dois milímetros. Em cima da porta Ted pensava:
- Não basta tocar, é preciso ver para amar alguém. E o vejo tão claramente. Meus olhos ficam ofuscados com tamanha luminosidade. Amo Lia.
Sobre o invisível Lia também esboçava seu rascunho. Não pensava. Apenas comparava diante da tevê Ted com um lápis. Foi quando o dono da cadeira que lia alugava gritou, soprando a brancura de Lia para longe dali:
- Lia! Saia de cima da porta. Procure um emprego. Arrume uma cozinha para pôr algo dentro e saia. Apareça menino!
terça-feira, 20 de maio de 2008
Sem título
Ismael Teixeira
O dia separa o sonho de qualquer coisa pálida.
Enquanto houver sol haverá dúvida.
Dúvida entre a tinta e a graxa.
Mas qualquer poeta conhece bem a chuva
E numa sombra bem escura pinta com o dedo um livro de fé.
Eu não posso ser poeta.
No entanto amiúde vago em luzes
Tirando um brilho intenso do escuro de minhas mãos.
No fim sorridente
Somente o simples a resumir o encanto
Quando em cada passo de um desconhecido
Vejo o dia multiplicar meus olhos.
O dia separa o sonho de qualquer coisa pálida.
Enquanto houver sol haverá dúvida.
Dúvida entre a tinta e a graxa.
Mas qualquer poeta conhece bem a chuva
E numa sombra bem escura pinta com o dedo um livro de fé.
Eu não posso ser poeta.
No entanto amiúde vago em luzes
Tirando um brilho intenso do escuro de minhas mãos.
No fim sorridente
Somente o simples a resumir o encanto
Quando em cada passo de um desconhecido
Vejo o dia multiplicar meus olhos.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Sem título
Raiça Bonfim
Nós dois viajamos juntos uma vez apenas.
Fomos para perto, pouca estrada até lá.
Vento e estrelas saberiam do contrário:
Nós dois, juntos, não deixamos de viajar.
Rente às águas, entre almas, pelos mundos,
Descobrimos cem mil línguas para os sonhos
Conservadas na bagagem dos segredos.
Bicicletas nos levavam nas garupas
E era noite, não por falta de alegria ou
De aurora. Por ser longe que eram noites.
Velhos parques davam o pulso do caminho
E estreávamos bailado de partida,
Meio a acenos de jardins que nos seguiam.
A infância, sempre o termo das paragens,
E a velhice, adjunta, e a velhice
Suscitavam os carretéis de nossa trama
Vez por outra, se corria morrer juntos,
Brenhazinha, abrolhávamos na relva,
Sob a música estrelar do crescimento.
Se algum porto ou minuto, nos brecasse
Pro cinema, algum filme se faria
Mas nós, juntos, era só fazer memória:
Nós dois, juntos, não deixamos de viajar.
Só silêncio pressentiu nossa passagem...
Nós dois, de tanto viajarmos juntos,
Nunca mais deixamos de, juntos, estar.
Nós dois viajamos juntos uma vez apenas.
Fomos para perto, pouca estrada até lá.
Vento e estrelas saberiam do contrário:
Nós dois, juntos, não deixamos de viajar.
Rente às águas, entre almas, pelos mundos,
Descobrimos cem mil línguas para os sonhos
Conservadas na bagagem dos segredos.
Bicicletas nos levavam nas garupas
E era noite, não por falta de alegria ou
De aurora. Por ser longe que eram noites.
Velhos parques davam o pulso do caminho
E estreávamos bailado de partida,
Meio a acenos de jardins que nos seguiam.
A infância, sempre o termo das paragens,
E a velhice, adjunta, e a velhice
Suscitavam os carretéis de nossa trama
Vez por outra, se corria morrer juntos,
Brenhazinha, abrolhávamos na relva,
Sob a música estrelar do crescimento.
Se algum porto ou minuto, nos brecasse
Pro cinema, algum filme se faria
Mas nós, juntos, era só fazer memória:
Nós dois, juntos, não deixamos de viajar.
Só silêncio pressentiu nossa passagem...
Nós dois, de tanto viajarmos juntos,
Nunca mais deixamos de, juntos, estar.
terça-feira, 15 de abril de 2008
Último verso
Ismael teixeira
flor morta
flor morta
porque ainda vives?
se na calçada
atrás da porta
até no último encanto viste!
lírios a derramar meu pranto
branco numa noite triste
volto para casa num acalanto
como um anjo que no fino ardor se abriste
peço que não chore minha amada
no último verso do que restou da guerra
deixo que a vida é juntar desgraça
e saudade para quem foi poeta
flor morta
flor morta
porque ainda vives?
se na calçada
atrás da porta
até no último encanto viste!
lírios a derramar meu pranto
branco numa noite triste
volto para casa num acalanto
como um anjo que no fino ardor se abriste
peço que não chore minha amada
no último verso do que restou da guerra
deixo que a vida é juntar desgraça
e saudade para quem foi poeta
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Aniversário
Raiça Bomfim
19 de março
Dia de São José
Dia de plantar milho pra colher no São João
Iansã, minha madrinha, ressoa no céu
(era quarta-feira também quando nasci)
São Pedro manda mais água
São José, banhado nela, fertiliza o chão
E dá a benção à família
Ao matrimônio
Às mães
Às marias
(e eu quase fui uma
Acabei Raiça e deu no mesmo)
Dia de peixes
As águas de março fecham o verão
O ano zodiacal vai dando adeus
E eu, de joelhos,
Peço a Odoyá, minha mãe,
Que me proteja
Artesãos comemoram seu dia
Talhando mulheres em madeira
Outros insistem no barro
Eu insisto em tanta coisa...
19 de março
O tempo mostra-me os dentes
Eu estremeço de riso e dor.
(Meu São José, abençoa minha família,
meu lar, meu ventre, meus anéis
Oxum, guarda minhas costas, meus olhos,
minhas águas
Ogum, dá-me coragem e força pra esse ano que começa).
Era um março como esse
Quando nasci perto do bosque
Mãe me pegou pro mar
É tanta água prum dia só
Acho que estou pra chorar...
19 de março
Dia de São José
Dia de plantar milho pra colher no São João
Iansã, minha madrinha, ressoa no céu
(era quarta-feira também quando nasci)
São Pedro manda mais água
São José, banhado nela, fertiliza o chão
E dá a benção à família
Ao matrimônio
Às mães
Às marias
(e eu quase fui uma
Acabei Raiça e deu no mesmo)
Dia de peixes
As águas de março fecham o verão
O ano zodiacal vai dando adeus
E eu, de joelhos,
Peço a Odoyá, minha mãe,
Que me proteja
Artesãos comemoram seu dia
Talhando mulheres em madeira
Outros insistem no barro
Eu insisto em tanta coisa...
19 de março
O tempo mostra-me os dentes
Eu estremeço de riso e dor.
(Meu São José, abençoa minha família,
meu lar, meu ventre, meus anéis
Oxum, guarda minhas costas, meus olhos,
minhas águas
Ogum, dá-me coragem e força pra esse ano que começa).
Era um março como esse
Quando nasci perto do bosque
Mãe me pegou pro mar
É tanta água prum dia só
Acho que estou pra chorar...
segunda-feira, 7 de abril de 2008
O que fica
Soul Sócrates
A inconfidência das palavras. Não falam. Não gemem. Tateam sobre o sentimento.
Não dizem. Se quer calam.
Porém, corroem o tempo. As únicas que o contém em si.
Por elas ele não passa. Fica.
Como quem inicia uma despedida, mas desiste. Venha. Vamos. Fique.
E ele obedece, não resiste.
Os lençois. Os travesseiros.
Todos lhe querem. Todos lhe cobrem.
E ela - abusada palavra - recolhe as flores, as frases.
Todas por ela - que não tem voz e nem lugar.
Se perdem. Invisíveis, coitadas.
Admiradas e usadas por poetas.
Pobres meretrizes.
Possuem as horas, esticam o tempo.
Mas delas sobram apenas os suspiros de quem não disse, escreveu.
A inconfidência das palavras. Não falam. Não gemem. Tateam sobre o sentimento.
Não dizem. Se quer calam.
Porém, corroem o tempo. As únicas que o contém em si.
Por elas ele não passa. Fica.
Como quem inicia uma despedida, mas desiste. Venha. Vamos. Fique.
E ele obedece, não resiste.
Os lençois. Os travesseiros.
Todos lhe querem. Todos lhe cobrem.
E ela - abusada palavra - recolhe as flores, as frases.
Todas por ela - que não tem voz e nem lugar.
Se perdem. Invisíveis, coitadas.
Admiradas e usadas por poetas.
Pobres meretrizes.
Possuem as horas, esticam o tempo.
Mas delas sobram apenas os suspiros de quem não disse, escreveu.
domingo, 6 de abril de 2008
Um segundo na estrada
Ismael Teixeira
As primeiras palavras da manhã são as mais puras da alma. Não se apresse minha amiga. Talvez meu silêncio nos preserve. Ainda há muita terra para guardar. Acordei a manhã com um banjo velho esperando no horizonte um sinal para onde outro dia irá chegar. Não se sabe quantos mundos já encheram esse sapato velho, quantos pés irão ainda por andar, melhor nem pensar. Você acorda e a manhã está tão bela. Passei a noite preparando ela. Tirei o sol do meu casaco. Não se apresse minha amiga. Ainda restam muitas manhãs para sonhar. O chapéu descansa as idéias quentes na minha cabeça, mas o corpo me aperta feroz para desaparecer na estrada. Deixo para trás cheiro de cavalo e sertão suado na sua pele fria. Não se vista mulher. Guarde o mesmo desejo para outro dia. As primeiras palavras da manhã são as mais puras da alma. As minhas começam nesse mar amarelo. Seu coração é um copo de água, o meu somente o deserto.
As primeiras palavras da manhã são as mais puras da alma. Não se apresse minha amiga. Talvez meu silêncio nos preserve. Ainda há muita terra para guardar. Acordei a manhã com um banjo velho esperando no horizonte um sinal para onde outro dia irá chegar. Não se sabe quantos mundos já encheram esse sapato velho, quantos pés irão ainda por andar, melhor nem pensar. Você acorda e a manhã está tão bela. Passei a noite preparando ela. Tirei o sol do meu casaco. Não se apresse minha amiga. Ainda restam muitas manhãs para sonhar. O chapéu descansa as idéias quentes na minha cabeça, mas o corpo me aperta feroz para desaparecer na estrada. Deixo para trás cheiro de cavalo e sertão suado na sua pele fria. Não se vista mulher. Guarde o mesmo desejo para outro dia. As primeiras palavras da manhã são as mais puras da alma. As minhas começam nesse mar amarelo. Seu coração é um copo de água, o meu somente o deserto.
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