Sócrates Santana
As coisas começaram a ficar evidentes, nem claras, nem escuras, evidentes. A unificação dos sindicatos, a falsa impressão que o partido era o governo, que o velho barbudo sofreu um golpe e uma liderança inimaginável assumiu o poder, que os nomes das ruas mudaram sem consulta prévia, que as eleições que aconteceram não aconteceram, e que a greve perdeu a validade, caiu em desuso, e que os Escritos sobre a greve são páginas de uma história em construção, que o livro no sovaco do menino de unhas por fazer não ensina nada, não comprova nada e que a qualquer momento todas as informações que possuía iriam colocar a sua vida em perigo, pois, logo logo uma carta iria cair sem maiores justificativas em suas mãos e nesta estaria escrito os próximos passos dessa novela. Depois de tropeçar em devaneios, olhou para o lado e viu uma menina sentada sobre um pedaço de banco de madeira, onde rabiscava um trecho de um poema "Arte longa vida breve Escravo não se escreve Escreve só não descreve Grita grifa grafa grava Uma única palavra Greve", parecia realmente evidente, ainda que o que parece possa não ser, ainda que o que é realmente seja uma convenção, ainda que a evidência seja uma dúvida, parecia, realmente, uma evidência, que logo se perdeu com o esfregão dos olhos de uma menino de braços sujos de sangue e verdade. A menina foi apagada como linhas de giz e o final da rua deu vez a próxima esquina, dobrada por pernas fragéis e orientadas por braços capazes de arrancar das entranhas de um homem todas as respostas de suas dúvidas, se assim for preciso.
Escritos sobre a greve 1º PARTE
Escritos sobre a greve - 2º PARTE
Escritos sobre a greve - 3º PARTE
Escritos sobre a greve - 4º PARTE
Escritos sobre a greve - 5º PARTE
Escritos sobre a greve - 6º PARTE
Escritos sobre a greve - 7º PARTE
Escritos sobre a greve - 8º PARTE
Escritos sobre a greve - 9º PARTE
Escritos sobre a greve - 10º PARTE
Escritos sobre a greve - 11º PARTE
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Viajens de Walter
Katherine Funke1
Duas palhetas, um cortador de unha, cinco camisetas, quatro bermudas, um chinelo. A mochila ia ganhando peso. Walter fazia a cabeça e a mala no ritmo de uma tartaruga.
2
Antes de sair, tocou "Don't let me down" no violão. Era uma pena deixar o instrumento em casa, mas havia decidido levar apenas sua mochila. Quanto mais leve a bagagem, mais destinos possíveis haveria. E o violão estaria sempre à sua espera, em casa. Se houvesse volta.
3
Ia saindo, já no portão, quando avistou Ricardo a chegar. Pensou em se desvencilhar do amigo, fingir pressa. "Mas é um bom amigo", pensou, "é um ótimo presságio". Ricardo mal sentou, acendeu um cigarro sem filtro e começou a chorar. Walter, por ser médico, era o único que poderia ajudá-lo.
4
Ricardo era hipocondríaco, tinha problemas não muito graves. Sua voz monótona cortava ecos fragmentados de "Don't let me down" nos tímpanos do amigo. O que se via nas retinas internas de Walter eram objetos que agora pareciam realmente intocáveis - o açaí da esquina, a passagem do avião, a mão da menina nova que conheceria um dia. Ricardo percebeu o silêncio do amigo. Não se zangou; levantou e saiu. Walter foi junto - e então começou a falar.
5
"Não se preocupe com suas dores nas costas, você está sedentário e deprimido em conseqüência. É só se mexer um pouco e tudo melhora", Walter falava, a caminho do ponto de ônibus. Olhava para a frente, dava passos largos e sorria, por causa do ar fresco de chuva por vir. Ricardo andava com esforço. "É, pode ser isso mesmo", resmungou. Entraram no ônibus cheio, onde mal podiam conversar. Ricardo saltou antes. Em quinze minutos, Walter estava diante do balcão de uma agência de viagens. "Por favor, que vôos vão sair na próxima hora?", perguntou.
6
Beagá, Floripa, Manaus e Rio", disse a moça. Walter perguntou os preços. Indeciso, tomou um café de quatro reais, fez contas em sua caderneta. Concluiu que aviões, aeroportos e táxis seriam caros demais. Se quisesse passar dias e dias fora, em diferentes lugares, teria que economizar. O susto não o entristeceu, ao contrário. Walter, em silêncio, agradeceu à vida pela oportunidade de fazer algo diferente, enfim. Desceu cantando até o ponto de ônibus, ultrapassou-o e caminhou ao longo da Estrada do Côco, parando vez ou outra para pedir carona, tal como tinha visto em filmes.
Duas palhetas, um cortador de unha, cinco camisetas, quatro bermudas, um chinelo. A mochila ia ganhando peso. Walter fazia a cabeça e a mala no ritmo de uma tartaruga.
2
Antes de sair, tocou "Don't let me down" no violão. Era uma pena deixar o instrumento em casa, mas havia decidido levar apenas sua mochila. Quanto mais leve a bagagem, mais destinos possíveis haveria. E o violão estaria sempre à sua espera, em casa. Se houvesse volta.
3
Ia saindo, já no portão, quando avistou Ricardo a chegar. Pensou em se desvencilhar do amigo, fingir pressa. "Mas é um bom amigo", pensou, "é um ótimo presságio". Ricardo mal sentou, acendeu um cigarro sem filtro e começou a chorar. Walter, por ser médico, era o único que poderia ajudá-lo.
4
Ricardo era hipocondríaco, tinha problemas não muito graves. Sua voz monótona cortava ecos fragmentados de "Don't let me down" nos tímpanos do amigo. O que se via nas retinas internas de Walter eram objetos que agora pareciam realmente intocáveis - o açaí da esquina, a passagem do avião, a mão da menina nova que conheceria um dia. Ricardo percebeu o silêncio do amigo. Não se zangou; levantou e saiu. Walter foi junto - e então começou a falar.
5
"Não se preocupe com suas dores nas costas, você está sedentário e deprimido em conseqüência. É só se mexer um pouco e tudo melhora", Walter falava, a caminho do ponto de ônibus. Olhava para a frente, dava passos largos e sorria, por causa do ar fresco de chuva por vir. Ricardo andava com esforço. "É, pode ser isso mesmo", resmungou. Entraram no ônibus cheio, onde mal podiam conversar. Ricardo saltou antes. Em quinze minutos, Walter estava diante do balcão de uma agência de viagens. "Por favor, que vôos vão sair na próxima hora?", perguntou.
6
Beagá, Floripa, Manaus e Rio", disse a moça. Walter perguntou os preços. Indeciso, tomou um café de quatro reais, fez contas em sua caderneta. Concluiu que aviões, aeroportos e táxis seriam caros demais. Se quisesse passar dias e dias fora, em diferentes lugares, teria que economizar. O susto não o entristeceu, ao contrário. Walter, em silêncio, agradeceu à vida pela oportunidade de fazer algo diferente, enfim. Desceu cantando até o ponto de ônibus, ultrapassou-o e caminhou ao longo da Estrada do Côco, parando vez ou outra para pedir carona, tal como tinha visto em filmes.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Sobre os manos e os atalhos da vida...
Walter Takemoto
A partir dos 8 anos (isso quer dizer quase 44 anos atrás!) saí da Vila Mariana e fui morar lá no Alto da Vila Maria, quebrada da zona norte de São Paulo, de ruas de barro e casas pobres e cortiços, quase todas ocupadas por nordestinos e negros. Tive lá os meus primeiros amigos de jogar bola na terra batida e pés descalços, de nadar nas lagoas das águas do rio Tietê, de pegar rãs nos brejos, de jogar bilhar e pebolim. Foi lá também que fui vender sorvete nas ruas, fazer carreto nas feiras, carregar tijolos nas obras.
E a grande façanha foi ser lateral direito no Arsenal F.C. com 13 ou 14 anos, no meio de um monte de homens. Todos os domingos saía o time de várzea no ônibus lotado, em direção a uma outra vila qualquer, pobre do mesmo jeito; uns bebiam a cachaça direto no gargalo, outros fumavam o bagulho de todo dia, enquanto o surdo comia solto. Era a diversão de todos e a paixão de outros, como do roupeiro, que não jogava, mas tava lá, distribuindo e recolhendo as camisas gastas, sujas e fedidas de suor. E tinha os que torciam e que, na falta de rojão, comemoravam dando tiros pro alto, pois que o instrumento de trabalho estava sempre lá, na cinta e ao alcance da mão.
Entre esses tinha o Ceará, bicheiro, que virou lenda por trocar tiros sozinho com a quadrilha do Zezinho da Vila Maria ( bem em frente à casa em que eu morava), uns três ou quatro, e levou tiros na perna, no braço e na barriga e saiu andando sem ajuda de ninguém e pôs todos pra correr com um revolver em cada mão. E continuou dono da banca, enquanto que o Zezinho, por ironia do destino, morreria um tempo depois cheio de balas no estacionamento que fizeram na casa em que eu tinha nascido lá na Liberdade!
E jogava e andava nas quebradas comigo o Jafra, negão de seus 1,80 metro, bonito e forte como um touro, com seus 17 anos. O Jafra tinha o sorriso largo e bonito e era meu chegado do peito e de fé. De vez em quando, eu, lá com meus 15 anos, treinava boxe com ele. Certo dia, o Jafra saiu no braço, ninguém sabe muito bem por que, com o Tonhão, dono de boca de fumo, e não deu outra. O Tonhão apanhou feio. E o que destrói a história de qualquer dono de boca é correr a história de que apanhou de um moleque e ficou por isso mesmo. Dias depois, o Jafra morreu na ponta da faca do Tonhão. E o Tonhão, tempos depois, morreu na cadeia de Aids.
Periferia? Não, “periferida”
Como o Jafra, muitos morreram ou foram para a cadeia ou se acabaram na bebida e nas drogas. Baianinho, Vilson, Samuca, Boca de Sapo, Ari e todos os outros que morreram na memória. Lá naquelas ruas de barro vermelho aprendi o que é viver na “periferida”, os códigos que dão significado a um mundo que é regido por outros parâmetros de convívio e sobrevivência. E isso tudo é pra que mesmo?
É pra dizer que a ida do MV Bill lá na Daslu não me sai da cabeça!
MV Bill, parafraseando (acho que é esse o termo) o velho compositor baiano, como “quase todos os pretos e quase todos os pobres”, nasceu lá em uma quebrada do Deus me livre, onde as coisas são o que são, para os que não são nem pretos e nem pobres. Por alguma razão que desconheço, talvez a música quem sabe, o MV Bill, tal qual o Mano Brown, ou o outro Brown que o Mano esculhambou na MTV, o seu Jorge, o Robinho, ou qualquer outro preto e pobre, teve um atalho na estrada do destino de todos os outros tão iguais que morrem como o Jafra, de morte matada, ou como o Tonhão, de morte morrida na cela de uma cadeia, ou dos esquecidos que morrem e não sabem e teimam em continuar fingindo que estão vivos por aí afora.
E o MV Bill se tornou um rapper. E o MV Bill virou líder da comunidade dos quase todos pretos e quase todos pobres. E o MV Bill resolveu filmar e escrever sobre todos os outros que não encontraram o atalho de saída por algum lugar da estrada do destino de todos eles. E o filme é tão frio, tão seco, tão feio e tão nada, como é a vida de todos que lá estão. E onde é que ficam a alegria, a camaradagem, a solidariedade e tudo mais que sobrevive nas vilas e favelas?
Tudo muito bem, tudo muito bom. Bater laje, comer feijoada e tocar pagode no fim de semana é o que há. O mutirão pra autoconstrução barateia levantar o barraco ou o puxadinho. Dividir o quilo disso e daquilo demonstra o quanto a miséria forja laços de solidariedade e provoca o que de melhor pode a generosidade humana. Que os anjos digam amém!
Mas não é da alegria nascida da miséria que nós, brancos e não pobres, falamos durante anos a fio, ou, como já falaram, não é o pão e o circo que pretendíamos fosse o destino da humanidade.
O atalho salvador e consolador
É ótimo oferecer esporte, capoeira, dança afro, percussão, e coisas do tipo pros meninos e pras meninas dos morros e favelas. É lindo vê-los lá, praticando e sonhando um dia subir num palco e se apresentar pros quase todos brancos, todos intelectuais, todos emocionados, por verem os pretos e pobres que arrumaram um atalho que os tirou das drogas e do crime que apavora os brancos e ricos. Que sucesso é ver uns poucos se safarem, pelo menos não precisamos mais sentir a culpa pelos outros muitos que estão lá, no caminho que lhes reservamos!
O que acontece na vida real é que viramos as costas pra periferida, que purga dia após dia. Qual foi o governo que assumiu a responsabilidade política de enfrentar o problema da miséria, do desencanto, da desesperança e da subvida que marca milhões de brasileiros ? Não venham me falar de bolsa disso ou bolsa daquilo, pois prefiro as bolsas rodantes das dasputas, pois elas são profissionais!
ONGs? Ótimo, mas cadê elas pra dizerem alto e bom som que tudo que fazem nada vai resolver ? Cadê elas pra juntarem o povo e lutarem pra que tudo que fazem se torne de fato políticas públicas? Pois, ao fim e ao cabo, trata-se de dizer que o que importa é um governo que de fato transforme em prioridade o fim da exclusão social.
Mas, e o MV Bill? Tava me esquecendo dele! Foi lá o negrão na Daslu, lançar seu livro. Escândalo! Como é que pode o MV Bill, rapper, saído lá da favela, sobrevivente, que se apresenta com um cano na cinta, porta-voz dos fudidos “que não podem foder fudido”, aparecer ao lado da dona Eliane sei lá o que, trambiqueira de luxo?
Na hora em que vi a foto do MV Bill sentado com a dona Daslu pousando seu rico braço sobre seu ombro fiquei puto, indignado e não acreditava no que via. Passados os dias e a visceralidade do momento, pensei cá com meus botões:
– E os artistas que beijam a mão de ACM e outros tais, pode? Condenamos eles ao inferno e jogamos no lixo seus CDs?
– E as ONGs que conseguem milhões de multinacionais, pode? Vamos dizer que elas fazem um trabalho maravilhoso e precisam desses financiadores?
– E os partidos ditos de esquerda que ganham milhões “não contabilizados” pode? Vamos votar e eleger seus dirigentes socialistas?
Coerência de quem, cara pálida?
E mais isso e mais aquilo e tudo mais que envolve o problema. O que quero dizer é que cobrar coerência de um cara como o MV Bill, que vai na Daslu lançar o seu livro porque recebe financiamento da dona pra construir sua sede e tocar seu projeto, é exagerado em um país sem coerência alguma daqueles que poderiam tentar dar coerência às suas ações. Ta lá o MV Bill com sua ONG, com grana da Daslu, com sessenta minutos do Fantástico, com o Faustão e tudo mais. Mas tá lá também seu filme dizendo que nada tá sendo feito e que os cadáveres vão se empilhando, e que de alguma forma fazemos de conta que nossa parte estamos fazendo.
Por algum motivo, um dia eu saí dessa. E um monte de maluco que andava comigo não saiu. Às vezes eu penso neles e me parece que tudo foi um sonho. Mas tá aí o MV Bill dizendo que é realidade e que o Alto da Vila Maria de 44 anos atrás é um paraíso perto das quebradas de hoje, seja a Cidade de Deus ou o Capão Redondo ou o Planeta dos Macacos.
Obs: texto publicado na Caros Amigos, sem número.
A partir dos 8 anos (isso quer dizer quase 44 anos atrás!) saí da Vila Mariana e fui morar lá no Alto da Vila Maria, quebrada da zona norte de São Paulo, de ruas de barro e casas pobres e cortiços, quase todas ocupadas por nordestinos e negros. Tive lá os meus primeiros amigos de jogar bola na terra batida e pés descalços, de nadar nas lagoas das águas do rio Tietê, de pegar rãs nos brejos, de jogar bilhar e pebolim. Foi lá também que fui vender sorvete nas ruas, fazer carreto nas feiras, carregar tijolos nas obras.
E a grande façanha foi ser lateral direito no Arsenal F.C. com 13 ou 14 anos, no meio de um monte de homens. Todos os domingos saía o time de várzea no ônibus lotado, em direção a uma outra vila qualquer, pobre do mesmo jeito; uns bebiam a cachaça direto no gargalo, outros fumavam o bagulho de todo dia, enquanto o surdo comia solto. Era a diversão de todos e a paixão de outros, como do roupeiro, que não jogava, mas tava lá, distribuindo e recolhendo as camisas gastas, sujas e fedidas de suor. E tinha os que torciam e que, na falta de rojão, comemoravam dando tiros pro alto, pois que o instrumento de trabalho estava sempre lá, na cinta e ao alcance da mão.
Entre esses tinha o Ceará, bicheiro, que virou lenda por trocar tiros sozinho com a quadrilha do Zezinho da Vila Maria ( bem em frente à casa em que eu morava), uns três ou quatro, e levou tiros na perna, no braço e na barriga e saiu andando sem ajuda de ninguém e pôs todos pra correr com um revolver em cada mão. E continuou dono da banca, enquanto que o Zezinho, por ironia do destino, morreria um tempo depois cheio de balas no estacionamento que fizeram na casa em que eu tinha nascido lá na Liberdade!
E jogava e andava nas quebradas comigo o Jafra, negão de seus 1,80 metro, bonito e forte como um touro, com seus 17 anos. O Jafra tinha o sorriso largo e bonito e era meu chegado do peito e de fé. De vez em quando, eu, lá com meus 15 anos, treinava boxe com ele. Certo dia, o Jafra saiu no braço, ninguém sabe muito bem por que, com o Tonhão, dono de boca de fumo, e não deu outra. O Tonhão apanhou feio. E o que destrói a história de qualquer dono de boca é correr a história de que apanhou de um moleque e ficou por isso mesmo. Dias depois, o Jafra morreu na ponta da faca do Tonhão. E o Tonhão, tempos depois, morreu na cadeia de Aids.
Periferia? Não, “periferida”
Como o Jafra, muitos morreram ou foram para a cadeia ou se acabaram na bebida e nas drogas. Baianinho, Vilson, Samuca, Boca de Sapo, Ari e todos os outros que morreram na memória. Lá naquelas ruas de barro vermelho aprendi o que é viver na “periferida”, os códigos que dão significado a um mundo que é regido por outros parâmetros de convívio e sobrevivência. E isso tudo é pra que mesmo?
É pra dizer que a ida do MV Bill lá na Daslu não me sai da cabeça!
MV Bill, parafraseando (acho que é esse o termo) o velho compositor baiano, como “quase todos os pretos e quase todos os pobres”, nasceu lá em uma quebrada do Deus me livre, onde as coisas são o que são, para os que não são nem pretos e nem pobres. Por alguma razão que desconheço, talvez a música quem sabe, o MV Bill, tal qual o Mano Brown, ou o outro Brown que o Mano esculhambou na MTV, o seu Jorge, o Robinho, ou qualquer outro preto e pobre, teve um atalho na estrada do destino de todos os outros tão iguais que morrem como o Jafra, de morte matada, ou como o Tonhão, de morte morrida na cela de uma cadeia, ou dos esquecidos que morrem e não sabem e teimam em continuar fingindo que estão vivos por aí afora.
E o MV Bill se tornou um rapper. E o MV Bill virou líder da comunidade dos quase todos pretos e quase todos pobres. E o MV Bill resolveu filmar e escrever sobre todos os outros que não encontraram o atalho de saída por algum lugar da estrada do destino de todos eles. E o filme é tão frio, tão seco, tão feio e tão nada, como é a vida de todos que lá estão. E onde é que ficam a alegria, a camaradagem, a solidariedade e tudo mais que sobrevive nas vilas e favelas?
Tudo muito bem, tudo muito bom. Bater laje, comer feijoada e tocar pagode no fim de semana é o que há. O mutirão pra autoconstrução barateia levantar o barraco ou o puxadinho. Dividir o quilo disso e daquilo demonstra o quanto a miséria forja laços de solidariedade e provoca o que de melhor pode a generosidade humana. Que os anjos digam amém!
Mas não é da alegria nascida da miséria que nós, brancos e não pobres, falamos durante anos a fio, ou, como já falaram, não é o pão e o circo que pretendíamos fosse o destino da humanidade.
O atalho salvador e consolador
É ótimo oferecer esporte, capoeira, dança afro, percussão, e coisas do tipo pros meninos e pras meninas dos morros e favelas. É lindo vê-los lá, praticando e sonhando um dia subir num palco e se apresentar pros quase todos brancos, todos intelectuais, todos emocionados, por verem os pretos e pobres que arrumaram um atalho que os tirou das drogas e do crime que apavora os brancos e ricos. Que sucesso é ver uns poucos se safarem, pelo menos não precisamos mais sentir a culpa pelos outros muitos que estão lá, no caminho que lhes reservamos!
O que acontece na vida real é que viramos as costas pra periferida, que purga dia após dia. Qual foi o governo que assumiu a responsabilidade política de enfrentar o problema da miséria, do desencanto, da desesperança e da subvida que marca milhões de brasileiros ? Não venham me falar de bolsa disso ou bolsa daquilo, pois prefiro as bolsas rodantes das dasputas, pois elas são profissionais!
ONGs? Ótimo, mas cadê elas pra dizerem alto e bom som que tudo que fazem nada vai resolver ? Cadê elas pra juntarem o povo e lutarem pra que tudo que fazem se torne de fato políticas públicas? Pois, ao fim e ao cabo, trata-se de dizer que o que importa é um governo que de fato transforme em prioridade o fim da exclusão social.
Mas, e o MV Bill? Tava me esquecendo dele! Foi lá o negrão na Daslu, lançar seu livro. Escândalo! Como é que pode o MV Bill, rapper, saído lá da favela, sobrevivente, que se apresenta com um cano na cinta, porta-voz dos fudidos “que não podem foder fudido”, aparecer ao lado da dona Eliane sei lá o que, trambiqueira de luxo?
Na hora em que vi a foto do MV Bill sentado com a dona Daslu pousando seu rico braço sobre seu ombro fiquei puto, indignado e não acreditava no que via. Passados os dias e a visceralidade do momento, pensei cá com meus botões:
– E os artistas que beijam a mão de ACM e outros tais, pode? Condenamos eles ao inferno e jogamos no lixo seus CDs?
– E as ONGs que conseguem milhões de multinacionais, pode? Vamos dizer que elas fazem um trabalho maravilhoso e precisam desses financiadores?
– E os partidos ditos de esquerda que ganham milhões “não contabilizados” pode? Vamos votar e eleger seus dirigentes socialistas?
Coerência de quem, cara pálida?
E mais isso e mais aquilo e tudo mais que envolve o problema. O que quero dizer é que cobrar coerência de um cara como o MV Bill, que vai na Daslu lançar o seu livro porque recebe financiamento da dona pra construir sua sede e tocar seu projeto, é exagerado em um país sem coerência alguma daqueles que poderiam tentar dar coerência às suas ações. Ta lá o MV Bill com sua ONG, com grana da Daslu, com sessenta minutos do Fantástico, com o Faustão e tudo mais. Mas tá lá também seu filme dizendo que nada tá sendo feito e que os cadáveres vão se empilhando, e que de alguma forma fazemos de conta que nossa parte estamos fazendo.
Por algum motivo, um dia eu saí dessa. E um monte de maluco que andava comigo não saiu. Às vezes eu penso neles e me parece que tudo foi um sonho. Mas tá aí o MV Bill dizendo que é realidade e que o Alto da Vila Maria de 44 anos atrás é um paraíso perto das quebradas de hoje, seja a Cidade de Deus ou o Capão Redondo ou o Planeta dos Macacos.
Obs: texto publicado na Caros Amigos, sem número.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
PLACA PCR 9161
Sòcrates Santana
A Pista. O Carro. A Placa. O Rapaz. Passa. O Meio-fio.
O Rapaz. Passa. O Meio-fio. A Pista. O Carro! A Placa.
A Placa. Passa. O Carro. O Rapaz. Na Pista. No Meio-fio.
O Rapaz. No Meio-fio. O Carro. Na Pista. Passa. A Placa.
PCR 9161
A Pista. O Carro. A Placa. O Rapaz. Passa. O Meio-fio.
O Rapaz. Passa. O Meio-fio. A Pista. O Carro! A Placa.
A Placa. Passa. O Carro. O Rapaz. Na Pista. No Meio-fio.
O Rapaz. No Meio-fio. O Carro. Na Pista. Passa. A Placa.
PCR 9161
Nudez
Raiça Bomfim
Afora o homem tudo é nudez.
Debaixo de um céu enorme,
estalando na corredeira,
me ponho afora.
A nudez é anterior à gente
e comum aos outros.
A nudez é anterior...
Mas eu, mulher da cidade,
me dispo.
E tudo parece assombrar-se.
Como houvesse o nascimento
d’algum bicho
ou o retorno da rainha.
Ponho a humanidade
afora
e o mundo estranha.
Mas enfim me reconhece
e segue seu curso
contendo-me em espécie
e pulso
novamente humana,
finalmente humana...
Só existem homens nus.
Afora o homem tudo é nudez.
Debaixo de um céu enorme,
estalando na corredeira,
me ponho afora.
A nudez é anterior à gente
e comum aos outros.
A nudez é anterior...
Mas eu, mulher da cidade,
me dispo.
E tudo parece assombrar-se.
Como houvesse o nascimento
d’algum bicho
ou o retorno da rainha.
Ponho a humanidade
afora
e o mundo estranha.
Mas enfim me reconhece
e segue seu curso
contendo-me em espécie
e pulso
novamente humana,
finalmente humana...
Só existem homens nus.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Escritos sobre a Greve – 11º PARTE
Soul Sócrates
O velho barbudo ainda esboçava uma reação, perante o desespero do menino, que ainda não acreditava no ato pouco provável que realizou contra um homem, quando o mesmo tomou-lhe - em um só golpe - o livro e a vida. O menino subiu calado às escadas do metrô, com os braços sujos de sangue, livro no sovaco, cabeça baixa e um olhar compenetrado, distante dos papéis que voavam na rua para ilustrar a imagem descrita, dos meninos que preparavam mais um coquetel molotove e dos arrepios póstumos de um ancião das palavras inauditas, morto pelo ímpeto juvenil de descobrir a verdade. A atenção dele estava voltada para as frases absortas sobre o peleguismo e a liderança cinzenta que comandava centenas de militantes imaginários espalhados pela grande rede, e que reescreveu a Convenção Das Coisas Importantes Que Não Poderiam Ser Ditas e convocou numa aleatória manhã de um mês qualquer, todas as lideranças e simpatizantes do partido maior com alguns dias de antecedência, distribuindo camisetas, bandeiras, broches, praguinhas, bonés e textos persuasivos sobre a nova era e os novos rumos dos sinistros dirigentes dos sindicatos esquecidos para deliberar encaminhamentos sobre a diretrizes republicanas que deveriam ser adotadas pela renovada composição do diretório de todas as pessoas e nomes. Por isso, na cabeça do menino ainda giravam, como círculos, gangorras, rodas, balanços, espirais e propagandas de cerveja, os métodos usados para garantir lotação máxima no salão onde iria pronunciar o grande baluarte do partido, como os ônibus à disposição dos dirigentes sindicais, os vales combustíveis fornecidos na véspera das prévias extraordinárias para os grandes quadros partidários, assim como a chegada dos manifestantes nas primeiras horas do dia, para, em fila, cada um garantir seu lugar. Tudo muito revisado, organizado, repassado, fiscalizado e minuciosamente registrado no livro de atas da superintendência especial das cerimônias inesperadas da turma do deixa disto.
Escritos sobre a greve - 1º PARTE
Escritos sobre a greve - 2º PARTE
Escritos sobre a greve - 3º PARTE
Escritos sobre a greve - 4º PARTE
Escritos sobre a greve - 5º PARTE
Escritos sobre a greve - 6º PARTE
Escritos sobre a greve - 7º PARTE
Escritos sobre a greve - 8º PARTE
Escritos sobre a greve - 9º PARTE
Escritos sobre a greve - 10º PARTE
Escritos sobre a greve - 11º PARTE
O velho barbudo ainda esboçava uma reação, perante o desespero do menino, que ainda não acreditava no ato pouco provável que realizou contra um homem, quando o mesmo tomou-lhe - em um só golpe - o livro e a vida. O menino subiu calado às escadas do metrô, com os braços sujos de sangue, livro no sovaco, cabeça baixa e um olhar compenetrado, distante dos papéis que voavam na rua para ilustrar a imagem descrita, dos meninos que preparavam mais um coquetel molotove e dos arrepios póstumos de um ancião das palavras inauditas, morto pelo ímpeto juvenil de descobrir a verdade. A atenção dele estava voltada para as frases absortas sobre o peleguismo e a liderança cinzenta que comandava centenas de militantes imaginários espalhados pela grande rede, e que reescreveu a Convenção Das Coisas Importantes Que Não Poderiam Ser Ditas e convocou numa aleatória manhã de um mês qualquer, todas as lideranças e simpatizantes do partido maior com alguns dias de antecedência, distribuindo camisetas, bandeiras, broches, praguinhas, bonés e textos persuasivos sobre a nova era e os novos rumos dos sinistros dirigentes dos sindicatos esquecidos para deliberar encaminhamentos sobre a diretrizes republicanas que deveriam ser adotadas pela renovada composição do diretório de todas as pessoas e nomes. Por isso, na cabeça do menino ainda giravam, como círculos, gangorras, rodas, balanços, espirais e propagandas de cerveja, os métodos usados para garantir lotação máxima no salão onde iria pronunciar o grande baluarte do partido, como os ônibus à disposição dos dirigentes sindicais, os vales combustíveis fornecidos na véspera das prévias extraordinárias para os grandes quadros partidários, assim como a chegada dos manifestantes nas primeiras horas do dia, para, em fila, cada um garantir seu lugar. Tudo muito revisado, organizado, repassado, fiscalizado e minuciosamente registrado no livro de atas da superintendência especial das cerimônias inesperadas da turma do deixa disto.
Escritos sobre a greve - 1º PARTE
Escritos sobre a greve - 2º PARTE
Escritos sobre a greve - 3º PARTE
Escritos sobre a greve - 4º PARTE
Escritos sobre a greve - 5º PARTE
Escritos sobre a greve - 6º PARTE
Escritos sobre a greve - 7º PARTE
Escritos sobre a greve - 8º PARTE
Escritos sobre a greve - 9º PARTE
Escritos sobre a greve - 10º PARTE
Escritos sobre a greve - 11º PARTE
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
Notas mínimas
embarque
Katherine Funke
Estava ali na zona de transição entre uma cidade e outra, prestes a embarcar em um avião; ali não era lugar para apegos ou lembranças. Depois do beijo, disse-lhe adeus, deu as costas, sorriu para ver mais uma vez a cara dele, e pensou - não sem pontada de alegria e medo no peito - que uma nova vida iria começar dali em diante.
toda manhã
Katherine Funke
Chove no rosto dela. E no corpo e na bolsa. Carla saiu de casa sem proteção. E de sandália. Agora anda pelas calçadas molhadas, sem marquises para abrigá-la. "Eu não tô nem aí pra morte/não tô nem aí pra sorte/eu quero mais é decolar toda manhã...", ela cantarola, pra si mesma. Arnaldo Baptista era seu herói. Então vai para o trabalho debaixo de chuva, e brinca com os pés com as poças do caminho, e tenta descobrir a temperatura da água testando-a com a língua sobre a pele do antebraço. São 7h30 da manhã, suas sandálias estão cada vez mais encharcadas. Chove no rosto de Carla, e ela sorri.
o importuno
Katherine Funke
Veio correndo inacreditavelmente na direção da fila. Atropelou duas mulheres (uma delas bem jovem e bonita à qual ainda dirigiu um leve gesto de cabeça, em desculpas) e um rapaz. Equilibrava num braço um notebook aberto. Nas orelhas, um fone de ouvido conectado ao celular. E senta-se ali, à beira do embarque na aeronave do vôo 1605, ainda resolvendo seus problemas com a pressa de um jovem empresário.
O que ninguém sabia é que ele só estava no telefone com a mulher, que queria saber, nos últimos instantes, qual tipo de queijo o marido queria no macarrão para jantar. Para isso havia enviado um e-mail com cinco tipos exóticos a serem avaliados em dois minutos. E ele avaliara. Decidira pelo coalho, que nunca comera, porque chegou a Brasil há duas semanas. Definir o cardápio era, de fato, uma questão de urgência máxima, se tivesse a ver com ser atencioso com sua adorada e perfeita Paloma.
Katherine Funke
Estava ali na zona de transição entre uma cidade e outra, prestes a embarcar em um avião; ali não era lugar para apegos ou lembranças. Depois do beijo, disse-lhe adeus, deu as costas, sorriu para ver mais uma vez a cara dele, e pensou - não sem pontada de alegria e medo no peito - que uma nova vida iria começar dali em diante.
toda manhã
Katherine Funke
Chove no rosto dela. E no corpo e na bolsa. Carla saiu de casa sem proteção. E de sandália. Agora anda pelas calçadas molhadas, sem marquises para abrigá-la. "Eu não tô nem aí pra morte/não tô nem aí pra sorte/eu quero mais é decolar toda manhã...", ela cantarola, pra si mesma. Arnaldo Baptista era seu herói. Então vai para o trabalho debaixo de chuva, e brinca com os pés com as poças do caminho, e tenta descobrir a temperatura da água testando-a com a língua sobre a pele do antebraço. São 7h30 da manhã, suas sandálias estão cada vez mais encharcadas. Chove no rosto de Carla, e ela sorri.
o importuno
Katherine Funke
Veio correndo inacreditavelmente na direção da fila. Atropelou duas mulheres (uma delas bem jovem e bonita à qual ainda dirigiu um leve gesto de cabeça, em desculpas) e um rapaz. Equilibrava num braço um notebook aberto. Nas orelhas, um fone de ouvido conectado ao celular. E senta-se ali, à beira do embarque na aeronave do vôo 1605, ainda resolvendo seus problemas com a pressa de um jovem empresário.
O que ninguém sabia é que ele só estava no telefone com a mulher, que queria saber, nos últimos instantes, qual tipo de queijo o marido queria no macarrão para jantar. Para isso havia enviado um e-mail com cinco tipos exóticos a serem avaliados em dois minutos. E ele avaliara. Decidira pelo coalho, que nunca comera, porque chegou a Brasil há duas semanas. Definir o cardápio era, de fato, uma questão de urgência máxima, se tivesse a ver com ser atencioso com sua adorada e perfeita Paloma.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Senhoras na Janela
Ismael Teixeira
O sorriso é um crime invertido. E eu. Como qualquer arma de bandido. Alegre. Atiro. Descansou a pena no pote de tinta preta antes de pensar que não era exatamente aquilo que queria enquanto letra. O sorriso é uma arma apontada para cima e ele queria acertar algo mais em baixo. Pisou devagar no chão de madeira . Tinha medo que o barulho pudesse tirar do lugar certas frases. Macio desceu as escadas e bebeu um copo de água imaginando ser um bom vinho. Milagre de um pobre escritor como ele. Após se refrescar, pois apesar do frio aquela noite, sentira seus nervos acelerados. Ascendeu, por fim mais uma vela e se dirigiu novamente à escrivaninha. O melhor sonho é quando sonhamos que somos felizes. Mas engraçado que quando esse sonho torna-se real, achamos que estamos loucos. Esse é um pequeno trecho de um escritor conhecido por guardar flores secas nos bolsos. Onde passava deixava um perfume estranho que provoca um torpor fazendo os passantes sentirem sono. Era visto sempre uma vez, não mais que isso. Escrevia nas janelas dos trens reclinado e pensativo distante dos olhares curiosos e impressionados. Isso fora há muito tempo, quando as pequenas ruas ainda tinham nomes. Ninguém se incomodava com ele, era inofensivo, entretanto, mesmo naquela época se sabia que não havia conversão para os lunáticos. O crime de ser livre sempre será pago com sarcasmo e indiferença. Mas havia os que o admiravam. Apesar de ser visto quase sempre solitário, quando não trocava rápidos diálogos incompreensíveis com anões e artistas de circo, alguns anotavam seus escritos que ficavam nas janelas dos trens como possível forma de faturar alguma coisa no futuro. A vela aquece as mãos enquanto lança uma boa réstia de luz trêmula no ambiente. A tinta preta parecia escrever saudades distantes. E de fato escrevia. O escritor conhecera o escritor dos vagões. Aquele homem tão exótico que ninguém poderia se aproximar se não houvesse em si também alguma aberração. Ao seu lado havia uma flor num pequeno jarro. Era uma flor comum que manchava de violeta as estradas de ferro em determinadas épocas do ano. A cor violeta é usada por mulheres que perderam os maridos. É a cor da lembrança sempre viva de mulheres antigas. A história daquele homem pouco se sabia. Até mesmo o escritor que escrevia sobre a nostalgia de não mais vê-lo. Parecia sim ser muito rico. Não por aparentar riqueza. Pelo contrário. Muita gente granfina ria de seus furões nas calças gastas e no sapato velho. Era, sim, rico, pela postura aristocrática e polida de andar, e dos seus gestos sempre contidos e movimentos delgados. Lembrava um artista mímico e triste, apesar do ar infantil que provocava uma aparência doce sob os trapos. Não fugindo a regra o escritor o viu apenas uma vez. Mas era essa única vez que provocara tanta constrição naquela noite de vozes baixas. Havia desespero naquela tarde chuvosa. Um desespero mudo e paralítico. Ele observara as flores violetas na janela daquele trem semi-escuro. Seus olhos secos haviam se cansado de chorar. Ele chorara agora através da chuva segurando em suas mãos ainda uma carta que não fora aberta. Na carta um pedido, uma promessa. No peito a esperança atada como uma forca em seu coração. Chegara tarde demais. Paralisado não vira um verso escrito na janela. O amor nada mais é que entregar sua vida para uma vida sem vida alguma. O problema de amar é que pensamos que há apenas uma vida. As palavras escritas ainda recentemente fizeram o rapaz levantar e procurar o seu autor. Ele já conhecera a fama do insano das janelas, mas diante do abismo que lhe ocorrera aquela tarde seu apetite era transbordar ainda mais o seu mundo. Procurou no vagão e nenhum sinal. Não poderia ser nenhum daqueles homens e mulheres que simplesmente comentavam sobre as coisas somente depois de serem coisas. Após a parada já descrente e confuso viu alguém assobiando para um passarinho. Nunca pensou que poderia mais sorrir. Então sorriu. Ao se aproximar da cena ouviu ainda de costas o rapaz que dizia: O sorriso é um crime invertido. E eu. Como qualquer arma de bandido. Alegre. Atiro. Depois escreva o resto. Ambos ficaram mudos. Ele continuou assobiando de costas. E o outro ali parado. Notando que o silencio o incomodara falou que tinha perdido o amor de sua vida e que aquela frase da janela o fizera muito bem. Vinha somente para agradecer. Após uma pausa e notando que nada mais iria ocorrer por ali pensou em continuar seu destino. Mas antes de continuar seu destino, falou o maltrapilho, lhe contarei que eu escrevo não para os homens e sim para as violetas. As violetas que nos observam da janela. Somente as violetas acreditam no amor. Assim como as senhoras que já perderam seus maridos. Ao esboçar qualquer reação o maltrapilho avançara sutilmente sobre ele e disse baixinho: Volte para a sua casa e continue a amá-la como sempre amou e verá que a diferença é que o amor ainda não se sentiu ainda. Subtraído pela força das palavras no papel releu o texto ainda úmido de sangue negro. Levantou, e olhando para janela contemplou seu jardim ainda adormecido de pequenas senhoras quase azuis.
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