segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

nenhum

quer dizer que um monte de picareta quebrou de tanto se divertir com grana e o governo vai salvá-lo com o dinheiro que era pra melhorar meu hospital? fala sério.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Como vai o cinema brasileiro


Segundo resultado de pesquisa do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Município do Rio de Janeiro, o público de cinema do Brasil não cresceu em 2008, ficando praticamente estagnado em relação ao número de espectadores em 2007. Cerca de 89 milhões de pessoas visitaram os cinemas tanto neste ano quanto no ano passado. Quando se fala em cinema nacional, a situação ainda é pior, já que o número de espectadores caiu. A pesquisa estima que a participação de mercado do filme nacional fique entre 9% e 10%. Houve um pequeno crescimento de 3,6% no número de salas. Em 2008, 119 foram abertas e 34 foram fechadas, totalizando 2300 em todo o país. A renda bruta também cresceu um pouco, 2,1%, somando R$ 723 milhões contra pouco mais de R$ 707 milhões em 2007. Os números finais, com os dados de todo o ano, serão divulgados na segunda semana de janeiro.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Debutante

Sócrates Santana

As duas meninas estavam felizes. De frente da penteadeira, as sardas, as mechas louras e os dentes brancos esboçavam o contentamento com os anos que chegam. No quarto dos fundos (a senzala moderna) a filha da empregada brinca com as bonecas da filha do patrão. O pai abraça a filha, que corre eufórica pelo corredor, enquanto a mãe sorrir emocionada e arruma a filhinha para o baile. A empregada faz o mesmo, ajeitando os laços lilases no encrespado cabelo da debutante de quintal. As duas descem juntas as escadas. A filha do patrão na frente e a amiga dos fundos atrás segurando o véu. Após o cessar da música, os convidados estão exaustos de dançar e beber. Alguns bebem até demais, como o patrão, que arranca o vestido da filha da empregada na marra. Enquanto a filhinha do patrão está aos soluços no quarto do namorado, a filha da empregada chora silenciosamente no quarto dos fundos. No hospital, o anestesista prepara as agulhas, enquanto a enfermeira massageia a barriga da paciente. Na emergência, uma jovem morre de hemorragia, sem direito a atendimento.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Dilacerado

Sócrates G. P. B. Santana
Um gole a mais bastou. A boca do copo ainda estava borrada pelo batom vermelho. Os dois saíram aos beijos. Ela, loura, alta e lânguida. Ele, careca, barbudo, mas esguio. Entraram sôfregos pela porta de trás do táxi. Mãos por de baixo das pernas, vestido para cima. O chofer olhava pelo retrovisor. Sinal vermelho. O chofer não teve tempo de sentir nem o vulto do ônibus atravessar a pista. Desviou em tempo, mas não conteve os lábios carnudos da loura, que tremia ante o dilacerado pênis do amante entre os dentes.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Jogo de cachorro grande

Sócrates G. P. B. Santana
No salão verde, o cerimonial organizava a feijoada do governo. Ao longe, o ministro do estado maior assistia atarantado os socialites beliscarem petiscos exóticos, enquanto aguardava uma ligação auspiciosa. Do outro lado da linha um jornalista ouvia a denúncia e apontava para o editor como quem diz "parem as máquinas, tenho um furo". No gabinete ao lado, o deputado Fulano de Tal acabará de receber um comunicado oficial do congresso nacional, que fechara um acordo para torná-lo o novo ministro do estado maior. O decreto de posse havia sido encaminhado para o diário oficial, que publicou no dia anterior na primeira página a última mudança no escalão de cima do governo. Na sinaleira, o menino do jornal anunciava "Feijoada derrubou o governo: novo ministro tem infecção ministerial no dia da posse. Após almoçar com congressistas, deputado Fulano de Tal é escolhido para assumir o ministério do estado maior, mas, antecessor aciona Polícia Federal e entrega dossiê sobre atividades ilícitas ligadas ao jogo do bicho do sucessor". Segundo a reportagem, o delator teria dito antes de entregar o dossiê: "Se não fico, ele também não".

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Liquefeito

Sócrates Santana
O casal se enrolou no último Carnaval. Aos pés do poeta deitaram e dormiram. Além de acordarem sem saberem o nome do outro também esqueceram a camisinha. Nada de aids nem sífilis. Uma gravidez indesejada. Ela voltou para São Paulo e dele não se sabe o paradeiro. Nove meses se foram rápido. Ela voltou para Salvador, encontrou o rapaz e entregou a criança. “Não tenho como criá-la”, explicou. Ele retornou para casa e pagou o aluguel adiantado. Comprou um berço e uma passagem para São Paulo. Saiu para o trabalho e deixou o fogão ligado. O gás liquefeito se espalhou pelo apartamento e asfixiou o bebê. “Encomenda para Cecília?”, avisou o carteiro. Abriu a carta e leu a mensagem. “Preferia o aborto”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Mulher do mar

Mari Almeida
Sou mulher que gosta de mar. Vejo ondas entre os carros que entopem a avenida 23 de maio. Ora é manhã, e o sol bate brilhando na maré cheia. Ora é noite, e a lua prateia meu mar de concreto. Penso em mar quando percebo, nos olhos verdes de quem passa, um tiquinho de emoção umedecida. Cheiro da areia, da maresia, do vento salgado... toda vez que essa saudade bate - não ria! - passo protetor solar, só pra lembrar. Sou mulher que gosta de mar. Penso no entardecer baixando no horizonte calmo e cristalino olhando o lago do parque, para me transportar no meu barco imaginário - total flex e popular - aos beira-mares por onde já passei, molhei os pés e fiquei a imaginar aonde acabaria todo aquele infinito. Mas o mar está longe, vai e vem só na lembrança, nas fotos que guardo em álbuns dentro de um armário. Ainda serei mulher do mar, a enterrar minha raiz na areia branca, a mergulhar minha alma nas ondas calmas, a chorar minhas perdas nas grandes ressacas e a deixar partir a nau sem rumo que foi a minha vida até aqui, longe do mar.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Metamorfose

Alexandre Acampora
Meu Deus! Estava remexendo alfarrábios na estante quando, sobre a capa de um livro abstruso, muito pouco visitado, me deparei com coisa tri-gosmenta, ectoplasmática, metamorfética. Era algo que a um lado parecia o casco pálido de uma joaninha, a outro quadrante se assemelhava a uma larva molhada de um alevino. Ao sul, era possível inteligir a carcaça de um inseto morto vivo ou redivivo. O algo se movia. Aquilo, através de um processo físico-químico assexuado estaria se transmutando em algo outro com resultados, por mim, desconhecidos. Era tão horrível quanto aqueles seres cósmicos e viscosos dos filmes americanos, só que em escala microscópica.

A entomologia por certo descreve com detalhes frios e classificações traduzidas ao latim esses fenômenos, mas para um observador casual, é uma cena Dantesca. De quantas a natureza é capaz! Pousar ali, na capa do livro adormecido na estante aquele troço. Que me livrem os entomologistas, tantos existem os lugares naturais, ecológicos, para que o processamento metamórfico, metamorfético desses seres seja desenvolvido fora do testemunho de seres humanos.

Ah! Toda paixão pela natureza desabará com a visão da coisa.

Uma amiga de tempos passados traduzia em todo tipo de fenômeno exótico, um sinal dos tempos. Sua memória fantasmática me sobreveio. Val, Valdirene, era quase uma bruxa ou quase um duende. Observava os detalhes microscópicos do movimento dos insetos em sua casa e descobria seus hábitos e habitações. Dizia compreendê-los por telepatia e dali extraía profecias, presságios, prognósticos. As especulações a respeito da legitimidade de seus conhecimentos deixaram Ipanema perplexa nos anos 80. Essa assombração hippie tomou meu espírito naquele instante e me lancei num oceano de indagações interpretativas. Por que ali? Na certa pelo papel. A textura, a porosidade e o olor do papel lembram folhas. Afinal papel já foi folha, tronco, árvore, semente. Então é isso! Insetos necessitam de uma textura vegetal para realizar essas mutações. Não! Mas que besteira! Eu deveria buscar o conceito, o sentido, o senso humano presente nas coisas. O signo.

É claro que foi o acaso. Circunstâncias incidentais favoreciam a desova. Mas na minha casa? Sobre meu livro? Haveria um sinal, uma comunicação do universo naquilo... O cosmos advertia por uma estante com poeira, fungos, umidade e imobilismo. Os livros, em sua disposição vertical, formataram o padrão de um microecosistema. Um bioma próprio para a procriação de lagartixas e seres gosmentos mutantes. Eu estava lendo menos que o necessário. Deveria ter me debruçado sobre aquele livro e tragado suas hipóteses. Era um preguiçoso merecedor de uma trama do cosmos.

O deserto de respostas definitivas para nomear o fenômeno me trouxe o ódio selvagem daqueles que desejam destruir o que não compreendem ou não conseguem explicar. O esquisito os ameaça. O arsenal de meu exército de truques para a defesa doméstica incluía álcool, sabão em pó, desinfetantes, água sanitária, detergente e, a arma drástica, o fogo. Fósforos e isqueiros. Tiranizado pela ignorância, vou queimar o livro para me livrar da dúvida. Neo Nero da cultura vou destruir um representante do patrimônio intelectual da humanidade por considerá-lo maculado. Inutilizado pelo trânsito da reencarnação biológica de uma espécie de inseto. De uma coisa viscosa que três aparências demonstra, e todas, e cada uma per si, descrevem uma tromboscose de formas. Tomo uma caixa de fósforos, uma lata de bom tamanho e a garrafa de álcool. Estou pronto para a execução pirotécnica do desconhecido. Pronto para esculhambar o inusitado, pousado em antigo livro. O fantasma de Val atiçou ainda mais meus instintos perversos. Era o livro das Tragédias de Shakespeare. Caso houvesse escolhido um Kafka, poderia ter lido no evento, uma identidade sincrônica, semelhante e bingo! Interpretaria um presságio positivo, de longa e intensa felicidade. Mas o livro das Tragédias de Shakespeare era a assinatura da fatalidade.

Antes de dar curso ao ritual, um lampejo de consciência social me detém. Devo aguardar a família. Aguardar as pessoas, os outros. Eles saberiam ponderar a mais sábia decisão.

Temia agora pelo tempo. O intervalo entre minha descoberta e a chegada dos outros. Quanto tempo duraria a metamoscose? O quê poderia em tripla dimensão ser tão tri-horrível? Tão tri-inexplicável? Um casco pálido de joaninha, uma gosma de carcaça de mosca e a larva de um alevino num único ser. Talvez aquilo significasse a intervenção de um organismo sobre outro. Um inseto colocara uma larva reprodutiva no corpo de outro inseto e agora se transmutava numa estrutura híbrida.

Estou preocupado. É noite. Ninguém chega.

É verdade que cuidamos de cães, gatos, plantas, pássaros. Mas cuidar do crescimento leguminoso dessa coisa, desse algo que afeto algum poderá oferecer, antes angústia. Que prazer qualquer poderá realizar, antes repulsa. Que gesto amigável demonstrará? Exibe seu não ser impenetrável, impérvio e repelente. E se move, palpita como um fígado extirpado de um carneiro. Uma gosma que parece respirar.

Graças! A chegada da família define uma decisão que envolve pano de limpeza e detergente. Pronto! Num segundo apenas a angústia que me tornara fraco e tirano se precipita para o lixo. O livro, agora de capa reluzente, repousa contente com as palavras e histórias vibrantes que protege e transmite.

A família delibera que a estante passará por faxina e não restará nesga de fungo ou umidade que permita o pouso do inexplicado. Será?