segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Como vai o cinema brasileiro


Segundo resultado de pesquisa do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Município do Rio de Janeiro, o público de cinema do Brasil não cresceu em 2008, ficando praticamente estagnado em relação ao número de espectadores em 2007. Cerca de 89 milhões de pessoas visitaram os cinemas tanto neste ano quanto no ano passado. Quando se fala em cinema nacional, a situação ainda é pior, já que o número de espectadores caiu. A pesquisa estima que a participação de mercado do filme nacional fique entre 9% e 10%. Houve um pequeno crescimento de 3,6% no número de salas. Em 2008, 119 foram abertas e 34 foram fechadas, totalizando 2300 em todo o país. A renda bruta também cresceu um pouco, 2,1%, somando R$ 723 milhões contra pouco mais de R$ 707 milhões em 2007. Os números finais, com os dados de todo o ano, serão divulgados na segunda semana de janeiro.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Debutante

Sócrates Santana

As duas meninas estavam felizes. De frente da penteadeira, as sardas, as mechas louras e os dentes brancos esboçavam o contentamento com os anos que chegam. No quarto dos fundos (a senzala moderna) a filha da empregada brinca com as bonecas da filha do patrão. O pai abraça a filha, que corre eufórica pelo corredor, enquanto a mãe sorrir emocionada e arruma a filhinha para o baile. A empregada faz o mesmo, ajeitando os laços lilases no encrespado cabelo da debutante de quintal. As duas descem juntas as escadas. A filha do patrão na frente e a amiga dos fundos atrás segurando o véu. Após o cessar da música, os convidados estão exaustos de dançar e beber. Alguns bebem até demais, como o patrão, que arranca o vestido da filha da empregada na marra. Enquanto a filhinha do patrão está aos soluços no quarto do namorado, a filha da empregada chora silenciosamente no quarto dos fundos. No hospital, o anestesista prepara as agulhas, enquanto a enfermeira massageia a barriga da paciente. Na emergência, uma jovem morre de hemorragia, sem direito a atendimento.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Dilacerado

Sócrates G. P. B. Santana
Um gole a mais bastou. A boca do copo ainda estava borrada pelo batom vermelho. Os dois saíram aos beijos. Ela, loura, alta e lânguida. Ele, careca, barbudo, mas esguio. Entraram sôfregos pela porta de trás do táxi. Mãos por de baixo das pernas, vestido para cima. O chofer olhava pelo retrovisor. Sinal vermelho. O chofer não teve tempo de sentir nem o vulto do ônibus atravessar a pista. Desviou em tempo, mas não conteve os lábios carnudos da loura, que tremia ante o dilacerado pênis do amante entre os dentes.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Jogo de cachorro grande

Sócrates G. P. B. Santana
No salão verde, o cerimonial organizava a feijoada do governo. Ao longe, o ministro do estado maior assistia atarantado os socialites beliscarem petiscos exóticos, enquanto aguardava uma ligação auspiciosa. Do outro lado da linha um jornalista ouvia a denúncia e apontava para o editor como quem diz "parem as máquinas, tenho um furo". No gabinete ao lado, o deputado Fulano de Tal acabará de receber um comunicado oficial do congresso nacional, que fechara um acordo para torná-lo o novo ministro do estado maior. O decreto de posse havia sido encaminhado para o diário oficial, que publicou no dia anterior na primeira página a última mudança no escalão de cima do governo. Na sinaleira, o menino do jornal anunciava "Feijoada derrubou o governo: novo ministro tem infecção ministerial no dia da posse. Após almoçar com congressistas, deputado Fulano de Tal é escolhido para assumir o ministério do estado maior, mas, antecessor aciona Polícia Federal e entrega dossiê sobre atividades ilícitas ligadas ao jogo do bicho do sucessor". Segundo a reportagem, o delator teria dito antes de entregar o dossiê: "Se não fico, ele também não".

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Liquefeito

Sócrates Santana
O casal se enrolou no último Carnaval. Aos pés do poeta deitaram e dormiram. Além de acordarem sem saberem o nome do outro também esqueceram a camisinha. Nada de aids nem sífilis. Uma gravidez indesejada. Ela voltou para São Paulo e dele não se sabe o paradeiro. Nove meses se foram rápido. Ela voltou para Salvador, encontrou o rapaz e entregou a criança. “Não tenho como criá-la”, explicou. Ele retornou para casa e pagou o aluguel adiantado. Comprou um berço e uma passagem para São Paulo. Saiu para o trabalho e deixou o fogão ligado. O gás liquefeito se espalhou pelo apartamento e asfixiou o bebê. “Encomenda para Cecília?”, avisou o carteiro. Abriu a carta e leu a mensagem. “Preferia o aborto”.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Mulher do mar

Mari Almeida
Sou mulher que gosta de mar. Vejo ondas entre os carros que entopem a avenida 23 de maio. Ora é manhã, e o sol bate brilhando na maré cheia. Ora é noite, e a lua prateia meu mar de concreto. Penso em mar quando percebo, nos olhos verdes de quem passa, um tiquinho de emoção umedecida. Cheiro da areia, da maresia, do vento salgado... toda vez que essa saudade bate - não ria! - passo protetor solar, só pra lembrar. Sou mulher que gosta de mar. Penso no entardecer baixando no horizonte calmo e cristalino olhando o lago do parque, para me transportar no meu barco imaginário - total flex e popular - aos beira-mares por onde já passei, molhei os pés e fiquei a imaginar aonde acabaria todo aquele infinito. Mas o mar está longe, vai e vem só na lembrança, nas fotos que guardo em álbuns dentro de um armário. Ainda serei mulher do mar, a enterrar minha raiz na areia branca, a mergulhar minha alma nas ondas calmas, a chorar minhas perdas nas grandes ressacas e a deixar partir a nau sem rumo que foi a minha vida até aqui, longe do mar.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Metamorfose

Alexandre Acampora
Meu Deus! Estava remexendo alfarrábios na estante quando, sobre a capa de um livro abstruso, muito pouco visitado, me deparei com coisa tri-gosmenta, ectoplasmática, metamorfética. Era algo que a um lado parecia o casco pálido de uma joaninha, a outro quadrante se assemelhava a uma larva molhada de um alevino. Ao sul, era possível inteligir a carcaça de um inseto morto vivo ou redivivo. O algo se movia. Aquilo, através de um processo físico-químico assexuado estaria se transmutando em algo outro com resultados, por mim, desconhecidos. Era tão horrível quanto aqueles seres cósmicos e viscosos dos filmes americanos, só que em escala microscópica.

A entomologia por certo descreve com detalhes frios e classificações traduzidas ao latim esses fenômenos, mas para um observador casual, é uma cena Dantesca. De quantas a natureza é capaz! Pousar ali, na capa do livro adormecido na estante aquele troço. Que me livrem os entomologistas, tantos existem os lugares naturais, ecológicos, para que o processamento metamórfico, metamorfético desses seres seja desenvolvido fora do testemunho de seres humanos.

Ah! Toda paixão pela natureza desabará com a visão da coisa.

Uma amiga de tempos passados traduzia em todo tipo de fenômeno exótico, um sinal dos tempos. Sua memória fantasmática me sobreveio. Val, Valdirene, era quase uma bruxa ou quase um duende. Observava os detalhes microscópicos do movimento dos insetos em sua casa e descobria seus hábitos e habitações. Dizia compreendê-los por telepatia e dali extraía profecias, presságios, prognósticos. As especulações a respeito da legitimidade de seus conhecimentos deixaram Ipanema perplexa nos anos 80. Essa assombração hippie tomou meu espírito naquele instante e me lancei num oceano de indagações interpretativas. Por que ali? Na certa pelo papel. A textura, a porosidade e o olor do papel lembram folhas. Afinal papel já foi folha, tronco, árvore, semente. Então é isso! Insetos necessitam de uma textura vegetal para realizar essas mutações. Não! Mas que besteira! Eu deveria buscar o conceito, o sentido, o senso humano presente nas coisas. O signo.

É claro que foi o acaso. Circunstâncias incidentais favoreciam a desova. Mas na minha casa? Sobre meu livro? Haveria um sinal, uma comunicação do universo naquilo... O cosmos advertia por uma estante com poeira, fungos, umidade e imobilismo. Os livros, em sua disposição vertical, formataram o padrão de um microecosistema. Um bioma próprio para a procriação de lagartixas e seres gosmentos mutantes. Eu estava lendo menos que o necessário. Deveria ter me debruçado sobre aquele livro e tragado suas hipóteses. Era um preguiçoso merecedor de uma trama do cosmos.

O deserto de respostas definitivas para nomear o fenômeno me trouxe o ódio selvagem daqueles que desejam destruir o que não compreendem ou não conseguem explicar. O esquisito os ameaça. O arsenal de meu exército de truques para a defesa doméstica incluía álcool, sabão em pó, desinfetantes, água sanitária, detergente e, a arma drástica, o fogo. Fósforos e isqueiros. Tiranizado pela ignorância, vou queimar o livro para me livrar da dúvida. Neo Nero da cultura vou destruir um representante do patrimônio intelectual da humanidade por considerá-lo maculado. Inutilizado pelo trânsito da reencarnação biológica de uma espécie de inseto. De uma coisa viscosa que três aparências demonstra, e todas, e cada uma per si, descrevem uma tromboscose de formas. Tomo uma caixa de fósforos, uma lata de bom tamanho e a garrafa de álcool. Estou pronto para a execução pirotécnica do desconhecido. Pronto para esculhambar o inusitado, pousado em antigo livro. O fantasma de Val atiçou ainda mais meus instintos perversos. Era o livro das Tragédias de Shakespeare. Caso houvesse escolhido um Kafka, poderia ter lido no evento, uma identidade sincrônica, semelhante e bingo! Interpretaria um presságio positivo, de longa e intensa felicidade. Mas o livro das Tragédias de Shakespeare era a assinatura da fatalidade.

Antes de dar curso ao ritual, um lampejo de consciência social me detém. Devo aguardar a família. Aguardar as pessoas, os outros. Eles saberiam ponderar a mais sábia decisão.

Temia agora pelo tempo. O intervalo entre minha descoberta e a chegada dos outros. Quanto tempo duraria a metamoscose? O quê poderia em tripla dimensão ser tão tri-horrível? Tão tri-inexplicável? Um casco pálido de joaninha, uma gosma de carcaça de mosca e a larva de um alevino num único ser. Talvez aquilo significasse a intervenção de um organismo sobre outro. Um inseto colocara uma larva reprodutiva no corpo de outro inseto e agora se transmutava numa estrutura híbrida.

Estou preocupado. É noite. Ninguém chega.

É verdade que cuidamos de cães, gatos, plantas, pássaros. Mas cuidar do crescimento leguminoso dessa coisa, desse algo que afeto algum poderá oferecer, antes angústia. Que prazer qualquer poderá realizar, antes repulsa. Que gesto amigável demonstrará? Exibe seu não ser impenetrável, impérvio e repelente. E se move, palpita como um fígado extirpado de um carneiro. Uma gosma que parece respirar.

Graças! A chegada da família define uma decisão que envolve pano de limpeza e detergente. Pronto! Num segundo apenas a angústia que me tornara fraco e tirano se precipita para o lixo. O livro, agora de capa reluzente, repousa contente com as palavras e histórias vibrantes que protege e transmite.

A família delibera que a estante passará por faxina e não restará nesga de fungo ou umidade que permita o pouso do inexplicado. Será?

Herança

Mayrant Gallo
Minha mãe sempre dizia que era para eu ter nascido catorze anos antes. Em 1948, portanto. Bem no pós-Guerra. Mas qual seria a diferença, se assim fosse? Acho que nenhuma. Eu seria hoje mais velho, mais experiente e, sem dúvida, mais amargo. Mas talvez nem tivesse me tornado escritor, talvez nem gostasse das palavras, dos livros. Preferisse carros, pôquer, corridas de cavalo, jardinagem. Sou filho de um contexto, dono de uma herança: gasto o que me formou, o que os dias me deram. Esses dias, iniciados em 1962 e que alguma coisa, num momento qualquer deste ou dos próximos anos, haverá de interromper.

Jangada impossível

Sócrates Santana
Uma jangada em cima da cama. Lençóis desenhavam a embarcação imaginária. Os meninos paraplégicos usavam as muletas de mastro e as camisas de vela. Na cabeça de cada um panelas eram chapéus de marinheiro e os óculos de mergulho o tapa olho do capitão. Diante do horizonte nostálgico da Baía de Todos, os meninos estilhaçaram a lâmpada acesa. Da colisão de átomos e sonhos foram empurrados por um mar de luz, que elevou a jangada imaginária até o desconhecido reino do impossível.

SEMEADURA (da série Paravaniando)

Raiça Bomfim
Eu morria de matar aula pra espiar aquela cena:
minha irmã se espalhando sobre a terra,
desabotoada e fresca, quando a tarde caía.
No céu, não sei se todo mundo via, mas lá também
dormia um homem, coberto de azul.
Mal se punham frente a frente, libertados pelo sono,
que o orvalho escorria.
Os pássaros chegavam em minha irmã, beijavam
seus poros e abriam vôo com o bico farto
de seus vapores. Era daí que a quentura da mana
encontrava o refrescamento do moço, bem no centro,
na barriga do terra-céu... E explodia um toró.
Pouco tempo depois, as mesas estavam fartas
de cajus e bananas.
E as gentes se empanturravam, felizes, de amor.

Parafuso

Sócrates Santana

O menino trocou as bolas. Passou horas afinco tentando desmontar o boneco de barro que o pai lhe deu a noite para lhe explicar o sentido da loucura. Com uma das mãos no queixo imaginava em voz alta, Cadê o parafuso. Resolveu resolver o problema. Disse para a mãe, Vou para a escola, A mãe disse, Não vai, Vou, Não vai, Vou, Não vai. Saiu porta afora sem dizer tchau. Avistou os amigos empinando pipa e temperando a arraia. Lá vai o maluquinho, teriam gritado se não tivessem visto antes o boneco de barro nas mãos do garoto. Foram atrás dele em procissão. Deixa vê, Não deixo, Deixa vai, Não, só na escola. E seguiram até a escola. A mãe, coitada, estava preocupada, Esse menino tá com um parafuso a menos, ir para a escola no feriado. Vou ligar para a diretora, Alô, Quem fala, É a mãe de um aluno, Qual aluno, O pequenininho de óculos, Sim, sei, diga senhora, Pois é, estou inculcada diretora, Cá também estou minha senhora, Mas, porquê a diretora diz isso, afinal já sabe do ocorrido, Não, não, mas pergunto o motivo da senhora ligar para a diretora no final de semana, Mas, é o seu trabalho, ou não é, Alto lá, trabalho dia e noite naquela escola, mas, somente de segunda à sexta, alto lá, Pois bem diretora, a senhora já respondeu a minha pergunta, passar bem. Bateu o telefone e a diretora ficou do outro lado com cara de tacho. A mãe do garoto pegou a bolsa e saiu após deixar recado para o marido. A diretora não deixou por menos, O que será que essa senhora queria comigo, Esqueceu do bolo que estava no forno e levantou as estribeiras até a escola. O pai do garoto voltou da corrida matinal e encontrou o recado na geladeira depois de tomar um gole na boca da garrafa, hábito que a esposa detestava, mas que se tornou um vício de infância. Minha nossa, o que aconteceu, vou atrás deles. Na porta da escola a mãe do garoto e a diretora olhavam uma multidão de meninos marcharem na rua numa espécie de protesto. Afinal de contas, o que está acontecendo, voltem para casa crianças. Tá aqui diretora, o boneco de barro, ele não tem parafuso. Parece que você também não tem não é garoto, Olha como fala com meu filho diretora, disse a mãe revoltada com a resposta dada ao filho e completou, Deve ter acontecido algo nesta espelunca de escola, bem que o meu marido me disse. Mas, é isso mesmo mamãe, eu não só não tenho um parafuso a menos, como não tenho nenhum parafuso. Como é que você fala uma coisa dessas garoto, me desfazendo na frente dos outros, Pelo jeito a senhora não ensinou bons modos para o seu filho senhora, Pelo contrário, pelo jeito essa escola vem perturbando a cabeça do meu menino, isso sim, Pelo nervosismo da senhora, percebo que é um traço de família, Parem com essa discussão, estou dizendo que não tenho parafusos, não sou uma máquina e esse boneco de barro é a prova disso. Ohh ecoaram os meninos atrás do garoto de óculos. Como assim, perguntaram as duas mulheres, Chega de e-mail, televisão, microondas, controle remoto, computador, câmara fotográfica, videogame, despertador, todos eles são feitos de parafusos e quebram toda hora por falta de parafuso, Sim, sim, prossiga, Pois bem, esse boneco é diferente, ele é único, ele é de barro e não pode ser consertado, no máximo remodelado, adaptado, assim como nós. E daí, teria dito a diretora enquanto a mãe ouviu absorta aquela história toda, E daí que eu quero aprender a fazer coisas como essa, única, igual ao meu pai. Ao longe o pai avistava a briga em torno do boneco, Minha mulher vai me matar. Portanto, diretora, de ensinar a lidarmos com os veículos de informação de massa, fast food, e filmes roliodianos, Minha senhora, seu filho tem quantos anos, Acho que meu filho tem um parafuso a mais diretora.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Provação

Sócrates Santana
O inverno é como verão neste lado do mundo. As folhas não caem e as pessoas apenas oram. Ouviram falar, um dia, não se sabe quando, sobre um tal Água, que deus a tenha, e lhe guarde uma boa morte, amém. O hábito de orar alimentou por décadas um povo que ainda guarda na língua cativa a palavra água. Vivem, não se sabe como, de ouvir falar. Acreditam na água, não se sabe por quê, de ouvir falar. É como se fosse uma lenda, uma profecia ou um conto de Borges. No vilarejo seco, de chão teso, padre louco e povo mouco, a água não é benta, mas é santificada pela crença dela existir. Os velhos falam às crianças na praça sobre a promessa de outros homens vestidos de paletó, que discursavam sobre alegóricos palanques de uma terra prometida, entre o sul e o norte, e um sertão que viraria mar e um mar que virou sertão e permaneceu sertão até hoje. A gota d´água não caiu do céu, nem brotou da terra. Também não passou carro-pipa. Uma página bastou. O livro se abriu, o poeta escreveu e a água existiu. A provação acabou.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

A palavra do dia 30 de outubro foi Boleto

Cristina



Era amor demais.

Era carinho, era bilhete,

era poesia,

era comida que eu gostava,

bebida que eu queria,

telefonema na hora certa,

palavra de cada momento.

Era beijinho daquele assim,

era tudo só pra mim.

Era sim.

Cheguei a pensar que Deus tava vendo,

que eu tinha feito coisa pra merecer,

com tão pouco que eu dava em troca...

E não é então,

pensei,

que isso existia?

Era não!

Um dia chegou o carteiro,

boleto, na mão.

Não entendi...

Telefonei.

Mandou nota fiscal.

Cobro tudo o que te dei!

Não acreditei!

Deixo meu nome sujo

Da policia eu até fujo

Mas pagar eu não paguei!

.................................................................



(cont.)



Mari



— Queria fazer um pedido...

— Fala!

— Posso pagar minhas dívidas com um boleto?

— Depende. Que dívidas?

— Essas mais cabeludas, de pisar na bola, ser injusto, magoar, não cuidar do outro...

— Hum... pode, não.

— Por quê?

— Porque se for assim, você vem aqui, quita e o máximo que sente é menos grana na conta.

— Mas já não tá bom?

— Não... não tá. Você acaba fazendo tudo de novo porque sabe que, depois, chega outro boleto.

E não aprende, não se esforça, não se preocupa nem se entristece por não ter ficado atento pra que essas coisas não aconteçam.

— Sei... entendi.... mas que seria mais fácil, seria.

— Fácil pra quem? Pra você ou pra quem você magoou?

— Ah....

— Melhor esquecer e ficar esperto. Porque essas contas sempre vêm. Elas vêm, sim, mas sem boleto.

— Então, vou indo, já que aqui não terá jeito.

— Boa sorte, amigo... Próximo!!!

Meus meios-domingos

Mayrant Gallo
Fui filho de um pai com duas famílias.
Raros eram os domingos em que meu pai não viajava, no começo da tarde, para ver sua outra mulher e sua filha, minha meia-irmã Indaiá que só vim a conhecer já adulto.
Por isso as partidas me fazem mal. Um trem se afastando na tarde ou um ônibus sumindo na curva, um navio ao longe ou um avião alçando vôo me trazem água aos olhos...
Por isso também os domingos me são tristes depois do meio-dia. Ainda que seja o meu dia preferido. Ou mesmo por isso: a emoção que senti insiste em ser repetida ou tão-somente relembrada − e isso dói.
É quase certo que ninguém jamais escapa do que foi. E eu fui um menino sem pai por muitos meios-domingos...

Iluminação

Soul Sócrates
Uma luz. Um rastro no corredor. Uma lamparina no casebre. A fresta na janela. Dois vaga-lumes no pasto. A sombra da lua sobre o mar. O contorno dos seus olhos. “A lágrima clara sobre a pela escura”. A esperança do farol da Barra, após o pôr do sol. Uma estrela na montanha. O raio e o trovão. O retorno de um coma induzido. O espectro da manhã. O caminho e a verdade. Uma alma iluminada. Amém.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O futuro

Sócrates Santana
O dia amanheceu feliz. As pessoas estavam nas ruas. Os sorrisos eram como flores. E a única sensação de tristeza, ficava por conta da nostalgia do outono. O sol invadia a janela e as mãos escondiam o rosto inevitável da manhã, que despertava de um sono profundo. Da escuridão das sombras. Das fotografias em preto e branco. Adeus passado.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Sem título.

Ismael Teixeira

Nada mais. Estrelas.

Na fila com João

Sócrates Santana
A vitrola toca João Gilberto. As pessoas sentam e escutam. Ainda há movimento. O burburinho, os beijos frívolos, os abraços desengonçados. O teatro está lotado. As pessoas sentam e escutam a vitrola de João. Um raio de luz emudece o público. Desligam a vitrola. O palco apagado pela escuridão reaparece. Um violão. Ao centro. E só. Aos poucos o silêncio prevalece. Um murmúrio ali, um tropeço acolá. "Vai começar", alguém arrisca. Um novo raio de luz. Uma cadeira. Logo ao lado do violão. A expectativa aumenta. As mulheres, todas elas, ainda se acomodavam nas poltronas. Mais um rastro de luz. Eis um microfone: "Só falta o João", certamente teriam dito, caso o João não surgisse entre aplausos e assovios. Agora era o João quem sentava e escutava o que antes dele estava vazio. O João carioca, nova-iorquino, parisiense, japonês seria agora, o João de todos.

Era tudo um sonho. Um devaneio ensolarado de um jovem de 26 anos, que acreditava na democracia das filas. Afinal de contas, a lógica é simples, desde criança aprendemos: "Quem vai chegando vai ficando atrás". Mas, a fila não andou. Um "palpite infeliz" de meu pai, coitado. "Pode ir filho. Tem ingresso para todos. Lá no Rio de Janeiro até Caetano e Gil tiveram que pegar fila, não vai ser diferente por aqui". É pai, velho Bira Santana. Não será desta vez que iremos ouvir - juntos - o João.

Só não entendo por que Madame mudou de uma hora para outra. Nunca gostou de samba, nunca levantou um único viaduto para o João. Por que, logo na minha vez, ela resolve assistir um espetáculo do João. No tempo da crítica de rádio, Magdala da Gama de Oliveira, o "samba" era "música barata, sem nenhum valor". Jamais correria o risco de enfrentar uma fila por sete horas - nove dias antes do espetáculo - e ficar sem o bilhete. Resta sonhar com uma nova apresentação, quem sabe em um novo teatro com o nome João Gilberto. Afinal são novos tempos, tempo do governador bossa nova.

Quem sabe um belo teatro. Na bilheteria, uma estátua de bronze, que faz companhia para quem ainda tenta comprar ingressos. Óculos de aro, testa franzina, terno de linho e violão no colo. No salão, a discografia completa da obra deste nobre cidadão de Curaçá. Uma série de painéis expõem momentos marcantes da sua carreira em vídeo. Em vitrines espalhadas pelo corredor, podemos contemplar violões doados pelo próprio João para a exposição. No palco, um microfone único para as apresentações: o microfone AKG 414. Mas, talvez esteja "sonhando, sonhando mil horas sem fim". Porque, fiquei com cara de tacho naquela fila, com "gente passando sorrindo, zombando de mim".

* Sócrates Gomes Pereira Bittencourt Santana é jornalista e estava na fila do TCA no último dia 26 de agosto desde as 5h.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Guerra n’água, nossa irmã

Raiça Bomfim

Vai coser vestes de mar

Tacar o remo na muralha
Inundar esses regaços
Salgar a língua deles tudo
Botar fé no que rebenta
E se atrever
- a roda, o amor, a lida -
Puxa a isca da sede e simbora
Fazer sol

Todo suor nos requisita

O agora

Katherine Funke

Metrô, o navio negreiro, aporta na estação. Din-don, as portas abrem para o mundo. Sair. Escadas. Mais escadas. Uma gota de suor desliza pelo lado direito da testa, rumo ao pescoço. Relógios marcam meio-dia; o sol quente faz tremeluzir o brilho do asfalto. Edson caminha louco de fome e de sede até seu micro-esconderijo no oitavo andar. Sobe um perfume de pastel de carne no caminho do prédio - um, dois no saquinho plástico - almoço barato. Edson dá cinco reais, o vendedor devolve um e oferece um refri de brinde. Maravilha. Sorrisos, obrigado, eu que agradeço, até. Elevador chega. Chave na porta. Senta no sofá. Come os pastéis. Deita para um cochilo. Está feliz e pensa: "Sentir o agora - e só". E cochila até as duas.

Avenida Paralela

Sócrates Santana
A cidade é quente e passageira na Avenida Paralela. Nela as pessoas são objetos, os carros sujeitos. Trocam de lugar quando um corpo está no chão e o capô sujo de sangue. Ao redor uma cortina de outdoors encobre a tragédia dos condomínios fechados. Sem pessoas nas janelas, a cidade não sorri. Não vê as encruzilhadas, os carros pretos e o poder que circunda os urubus. Não vê a carniça, a macumba e os cães que ladram mais não mordem. A cidade é passageira na Avenida Paralela. A vida é efêmera, a paisagem é uma vitrine e as pessoas, as pessoas, as pessoas...morrem e param o trânsito.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Olhos de cão azul

Gabriel García Márquez

Então olhou para mim. Pensava que olhava para mim pela primeira vez. Mas então, quando se virou por trás do abajur, e eu continuava sentindo sobre o ombro, nas minhas costas, seu escorregadio e oleoso olhar, compreendi que era eu quem a olhava pela primeira vez. Acendi um cigarro. Traguei a fumaça áspera e forte, antes de fazer girar a cadeira, equilibrando-a sobre uma das pernas posteriores. Depois disso a vi ali, como havia estado todas as noites, de pé junto ao abajur, me olhando. Durante breves minutos não fizemos nada mais que isto: olhar-nos. Eu, olhando-a da cadeira, equilibrando-me numa das pernas traseiras. Ela, em pé, me olhando, com uma das mãos, comprida e quieta, sobre o abajur. Via as pálpebras iluminadas como todas as noites. Foi então que lembrei o de sempre, quando lhe disse: "Olhos de cão azul". Ela me disse, sem tirar a mão do abajur: "Isso. Já não o esqueceremos nunca". Saiu da órbita suspirando: "Olhos de cão azul. Escrevi isso por todas as partes”.

Leia na íntegra:
Gabreil Garcia Márquez

O conto da ilha desconhecida

José Saramago

Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar.

Leia o conto na íntegra:
José Saramago

quarta-feira, 16 de julho de 2008

O signo da água

Sócrates Santana

Finalmente, o governo terminou as instalações dos reservatórios. Esses vão receber dos canais construídos entre o grande rio vindo do Norte e o grande rio comprido que corta o país do Norte a Sul, toda a água necessária para matar de morte matada e fulminante – sem espaço para maiores justificativas da história política daquele estado-nação – a sede ainda não saciada pela longa engenhoca inventada, deus sabe lá por quem, para acabar definitivamente com a vontade de beber de um povo que por desuso ficou habituado a apenas a creditar que esse dia chegaria, mas sem jamais convir de que tal momento realmente seria realmente real, verdadeiro, distante de uma miragem maldita que acendia na cabeça uma idéia falsa de fim e começo de uma nova vida, banhada pela pura água, palavra que ainda era sabida, que por lenda ainda sobrevivia na língua cativa daquela gente, ainda que pouco pronunciada, ainda que a forma e a função para que servia jamais tenham sido unidas numa coisa que fosse ao mesmo tempo as duas, sem nem mesmo dividir, sem que o significado desta possua uma referência visível para dizer, isto é, como se fosse aquilo apontado com o dedo para algo que de tão distante da realidade fez confundir o miolo do mais dedicado filosofo kantiano, o qual diante de tal quadro de escassez, viu que a palavra havia ganho a condição de representada em deriva da condição imposta de representação. Foram décadas, séculos, milênios de promessas mirabolantes, sofistas, politiqueiras e eleitorais. A palavra havia ganho valor sobre algo que não era visto, mas muito comentado, estudado, citado, escrito, pesado, pensado, prosado, imaginado, idealizado, profetizado, desenhado, mas nunca visto, levando em conta de que o nunca também ganhou com o passar dos tempos um outro sentido nesta terra de promessas, já que o coitado não via passar na sua frente a muito a tal água, portanto, assim como um banco de dados que precisa deletar dos seus arquivos informações antigas para assim cederem espaços para novas, o nunca apagou da memória a última vez que viu correr por suas mãos, metaforicamente dizendo, a tal água. A população vivia, não se sabe Deus como, de ouvir falar. Porém, após investimentos nunca visto em nenhuma outra administração pública, a água deixaria de viver no imaginário para estar ao lado de todos aqueles que por ela por tantos anos oraram, que Deus a tenha, alguns até diziam.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

À espera do governador

Sócrates Santana
Aguardavam todos. Sem reclamar, diga-se de passagem. Ora com as mãos nos bolsos, ora com os celulares encostados no ouvido. A condição incomoda pouco importava. Disfarçavam bem. Não eram nem de longe as lideranças regionais que discursam em grandes palanques pelo o interior. Tão pouco lembravam aqueles homens endinheirados, que fechavam os bares e embebedavam todos por sua conta. Ali todos aguardavam. Em pé, diga-se de passagem. Aos montes, prefeitos, candidatos a prefeito, vereadores, candidatos a vereadores, aguardavam o governador. E não quero aqui dizer que o excelentíssimo não estava, como quem bate na porta e pergunta se tem gente. Não, de modo algum. Só que assim como todos aguardavam a sua hora, a sua vez de falar com o doutor ou com a moça do balcão, assim também aguardavam todos. Em fila. Cada um com o seu crachá, conforme reza a cartilha da Casa Militar. Tudo por uma foto com o governador. Afinal de contas, são eleições municipais.

domingo, 13 de julho de 2008

Sorrisos

Sorrisos são caminhos suspensos
Varais onde secam olhos fechados
Ao mar. Unindo pouco e infinito
Um dia descobri um abrigo
Quando meus pés descalços abraçaram a terra
Como um cavalo abraça um homem numa cavalgada
O corpo, então, fica próximo da alma
Enquanto a pele esticada toca vazios
Penso que chamam isso de infância
Mas prefiro dizer desafios
Sorrisos são discretas danças
Um convite para deixar o círculo
E mais...
Muito mais...
São as melhores maneiras de ficarmos mais próximos dos passarinhos.

sábado, 12 de julho de 2008

Sem título

Ontem vi a vida sentar no meu colo
Não era bela nem amarga como sugerem os tolos
Disse somente com uma voz de criança
Para deixar aquela velha insônia
Já não há mais tantos homens no mundo
Qualquer bicho pode falar
Era uma longa noite aquela
E naquele quarto de hotel
Ascendia um charuto com o calor das minhas botas
Um breve sorriso
Palavras num papel amassado à pouco antecipara sua visita
Diziam para não se preocupar
Gente como eu cumprimenta os homens de passagem
E dá de beber aos animais.

Goiás Velho
Em alguma noite de Junho
.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Sem título

Uma homenagem a Manoel de Barros e Maiakovski

esqueçam
não são os sonhos que fazem filhos
que reviram a terra quente
e acatam o destino
enquanto mãos pelejam
sonhadores dormem
eu quero escrever somente quando as palavras secarem
e pesadas como tijolos
possam se erguer uma a uma com a força dos meus pulmões
quero versos como estacas e vigas
poemas como casas e hospitais
escolas para qualquer um dos meus camaradas
hoje a poesia é uma pedra e uma estrada
com flores, sim, mas uma pedra e uma estrada
onde até mesmo uma vírgula diminuta caiba
sem se achar minúscula
esqueçam
o sonho é somente o descanso de mãos cansadas
que após se equilibrarem no último trem
acariciam mães e filhos risonhos
papéis no último rastro de luz
hoje a poesia é pedra e estrada
sem rima, sem hipérbole, nem metáfora
poesia com flores,sim, mas calejada
como aquela plantada no quintal de uma pequenina casa
antiga casa que viveram os verdadeiros poetas
que escreviam somente o que sabiam:
tudo é vontade virando pão
e pão virando vontade.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Borboletas Amarelas

Árvore Azul

A vida que temos vai até onde sabemos. As borboletas sabem o quão é curta a vida, talvez porisso sejam tão belas. Uma vez vi uma borboleta amarela vagar entre muitas árvores. Foram tantas que mal pude saber o quanto vôou. Era uma borboleta amarela e borboletas amarelas são raras por aqui. Sem entender o seu motivo lá se foi aquela voando desengonçada contra o vento. Escrevia em seu caderninho tudo o que encontrava em seu caminho. Um pouco tímida e sorridente por momentos desaparecia, o que me causava apreensão, pois esses animais vivem tão pouco que de tão pouco não seria o bastante para mim. Já havia me acostumado com sua presença distante. Eu não sou biólogo. Nada conheço sobre categorias e espécies de plantas e animais. Sou somente um poeta viajando pelo mundo procurando beleza para viver e escrever. A beleza é simples e possível, e, assim como um poema, pode ser um pequeno instante que dura a vida toda. A vida pode não ser toda ela, mas se houver nela um momento, mesmo um pequeno momento capaz de preencher toda a alma e nos deixar inteiros o suficiente podemos, quem sabe, jamais temer o resto. Pensando nisso que um dia de sol resolvi me aproximar daquele bichinho que encolhido numa flor do cerrado brincava com as próprias mãos. Ao me aproximar dela parecia saber que eu desejava um sorriso, porque como por um encanto ou mesmo obediência me olhou e sorriu com ternura. Encabulado, me sentei em outra flor, e conversamos como se fôssemos da mesma família. Aquela tarde iria me ensinar alguma coisa. Quando pensei em abraçá-la ela havia me abraçado. Quando pensei em beijá-la, seus lábios já haviam encostado nos meus. Antes do sol se despedir, quando não tínhamos quase algum segredo e admirado pelos seus olhos distantes e serenos disse sem pensar que o mundo era pequeno e seus olhos tristes, mas tão tristes que ficaram tranquilos por saberem que o mundo é mesmo triste. Sem nada a dizer continuou a olhar aquele pôr-do-sol que parecia não acabar nunca pintando o mundo inteiro de amarelo. Olhava, mas olhava como se se estivesse fora da janela, fora dos próprios olhos. Olhava mas não olhava apenas; vivia cada expressão, cada contorno dourado como se parada também voasse. Então uma alegria me tomou de repente e pensei num imenso sorriso. Estávamos sorrindo juntos. No mesmo instante. Juntos. E, no mesmo instante que entendi qua a vida que temos vai até onde sabemos. Naquela flor ficara uma pequena caixa amarela com duas borboletas pintadas. Uma partira, outra ficara. As duas juntas para sempre.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Sem título

Árvore Azul

os passos
somente os passos
quando ando
no chão
a terra virando pés que se encontram
e nas mãos
a Terra virando mãos que se abraçam

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Sem título

Árvore azul

Uma pedra
Somente uma pedra
Fiz dela todo meu caminho
Não se enganem amigos
Não há mais tanto o que encontrar
Bem-vindos ao deserto
O horizonte ficou tão longe
Chegamos ao destino
Enfim eu sei
Enfim sabemos
Dormimos.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sem título

Ismael Teixeira

Oh o quão tarde agora fico
O meu amor que de tanto rodar virou disco
A resmungar baixinho numa vitrola cansada
O mesmo refrão de uma antiga canção perdida
Assim como as rosas são corações que partiram
O meu também se guardou e foi sumindo
Até que no último final de toda a vida
Adormeceu numa caixa de bombons de teu preterido.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Amores incolores

Soul Sòcrates

- Já são vinte e três horas!
Ted estava atrasada. Havia marcado um encontro. Ele tinha olhos brancos, cabelos brancos, pele branca e uma mente vazia. Era o que Ted queria. Um garoto sem nada na cabeça. Dobrou o chão, a mesa e colocou tudo nos lençóis da cozinha. Estava atrasada. Não tinha espaço para pensar demais. Andava como se estivesse com raiva do colchão. Cada passo era como um murro. Engraçado. Ele não sentia nada.
- Será que Lia não vem de novo? Não sabia como, mas sem porque Ted perguntava enquanto acariciava uma bermuda amarela, cheirosa, que tinha acabado de sorrir para o dia.
Meia atabalhoada com as mãos, pareciam amarradas, Ted corria contra o espaço . Logo viu Lia. Parecia um vácuo. Estava lindo.Deitado sobre o colchão azul do laboratório, Lia brincava com a pequena bermuda. Ou era a bermuda que brincava com ele?
Os dois se entreolharam. Havia um tempo entre os dois que os separavam. Resolveram ficar parados. Viraram as cabeças para se verem melhor. E foi assim durante dois milímetros. Em cima da porta Ted pensava:
- Não basta tocar, é preciso ver para amar alguém. E o vejo tão claramente. Meus olhos ficam ofuscados com tamanha luminosidade. Amo Lia.
Sobre o invisível Lia também esboçava seu rascunho. Não pensava. Apenas comparava diante da tevê Ted com um lápis. Foi quando o dono da cadeira que lia alugava gritou, soprando a brancura de Lia para longe dali:
- Lia! Saia de cima da porta. Procure um emprego. Arrume uma cozinha para pôr algo dentro e saia. Apareça menino!

terça-feira, 20 de maio de 2008

Sem título

Ismael Teixeira

O dia separa o sonho de qualquer coisa pálida.
Enquanto houver sol haverá dúvida.
Dúvida entre a tinta e a graxa.
Mas qualquer poeta conhece bem a chuva
E numa sombra bem escura pinta com o dedo um livro de fé.
Eu não posso ser poeta.
No entanto amiúde vago em luzes
Tirando um brilho intenso do escuro de minhas mãos.
No fim sorridente
Somente o simples a resumir o encanto
Quando em cada passo de um desconhecido
Vejo o dia multiplicar meus olhos.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Sem título

Raiça Bonfim

Nós dois viajamos juntos uma vez apenas.
Fomos para perto, pouca estrada até lá.
Vento e estrelas saberiam do contrário:

Nós dois, juntos, não deixamos de viajar.

Rente às águas, entre almas, pelos mundos,
Descobrimos cem mil línguas para os sonhos
Conservadas na bagagem dos segredos.

Bicicletas nos levavam nas garupas
E era noite, não por falta de alegria ou
De aurora. Por ser longe que eram noites.

Velhos parques davam o pulso do caminho
E estreávamos bailado de partida,
Meio a acenos de jardins que nos seguiam.

A infância, sempre o termo das paragens,
E a velhice, adjunta, e a velhice
Suscitavam os carretéis de nossa trama

Vez por outra, se corria morrer juntos,
Brenhazinha, abrolhávamos na relva,
Sob a música estrelar do crescimento.

Se algum porto ou minuto, nos brecasse
Pro cinema, algum filme se faria
Mas nós, juntos, era só fazer memória:

Nós dois, juntos, não deixamos de viajar.

Só silêncio pressentiu nossa passagem...
Nós dois, de tanto viajarmos juntos,
Nunca mais deixamos de, juntos, estar.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Último verso

Ismael teixeira

flor morta
flor morta
porque ainda vives?
se na calçada
atrás da porta
até no último encanto viste!
lírios a derramar meu pranto
branco numa noite triste
volto para casa num acalanto
como um anjo que no fino ardor se abriste
peço que não chore minha amada
no último verso do que restou da guerra
deixo que a vida é juntar desgraça
e saudade para quem foi poeta

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Aniversário

Raiça Bomfim

19 de março
Dia de São José
Dia de plantar milho pra colher no São João
Iansã, minha madrinha, ressoa no céu
(era quarta-feira também quando nasci)
São Pedro manda mais água
São José, banhado nela, fertiliza o chão
E dá a benção à família
Ao matrimônio
Às mães
Às marias
(e eu quase fui uma
Acabei Raiça e deu no mesmo)
Dia de peixes
As águas de março fecham o verão
O ano zodiacal vai dando adeus
E eu, de joelhos,
Peço a Odoyá, minha mãe,
Que me proteja
Artesãos comemoram seu dia
Talhando mulheres em madeira
Outros insistem no barro
Eu insisto em tanta coisa...
19 de março
O tempo mostra-me os dentes
Eu estremeço de riso e dor.

(Meu São José, abençoa minha família,
meu lar, meu ventre, meus anéis
Oxum, guarda minhas costas, meus olhos,
minhas águas
Ogum, dá-me coragem e força pra esse ano que começa).


Era um março como esse
Quando nasci perto do bosque
Mãe me pegou pro mar
É tanta água prum dia só
Acho que estou pra chorar...

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O que fica

Soul Sócrates

A inconfidência das palavras. Não falam. Não gemem. Tateam sobre o sentimento.
Não dizem. Se quer calam.
Porém, corroem o tempo. As únicas que o contém em si.
Por elas ele não passa. Fica.
Como quem inicia uma despedida, mas desiste. Venha. Vamos. Fique.
E ele obedece, não resiste.
Os lençois. Os travesseiros.
Todos lhe querem. Todos lhe cobrem.
E ela - abusada palavra - recolhe as flores, as frases.
Todas por ela - que não tem voz e nem lugar.
Se perdem. Invisíveis, coitadas.
Admiradas e usadas por poetas.
Pobres meretrizes.
Possuem as horas, esticam o tempo.
Mas delas sobram apenas os suspiros de quem não disse, escreveu.

domingo, 6 de abril de 2008

Um segundo na estrada

Ismael Teixeira

As primeiras palavras da manhã são as mais puras da alma. Não se apresse minha amiga. Talvez meu silêncio nos preserve. Ainda há muita terra para guardar. Acordei a manhã com um banjo velho esperando no horizonte um sinal para onde outro dia irá chegar. Não se sabe quantos mundos já encheram esse sapato velho, quantos pés irão ainda por andar, melhor nem pensar. Você acorda e a manhã está tão bela. Passei a noite preparando ela. Tirei o sol do meu casaco. Não se apresse minha amiga. Ainda restam muitas manhãs para sonhar. O chapéu descansa as idéias quentes na minha cabeça, mas o corpo me aperta feroz para desaparecer na estrada. Deixo para trás cheiro de cavalo e sertão suado na sua pele fria. Não se vista mulher. Guarde o mesmo desejo para outro dia. As primeiras palavras da manhã são as mais puras da alma. As minhas começam nesse mar amarelo. Seu coração é um copo de água, o meu somente o deserto.

sábado, 29 de março de 2008

quarta-feira, 26 de março de 2008

Déjà-vu

Soul Sócrates

Cotidiano invisível
Cê parece com alguém que um dia conheci
Relativamente, impossível
Para alguns, não sou ninguém
Para outros, factível

segunda-feira, 24 de março de 2008

Praça da Piedade

Sócrates Santana

A cidade é mais real e viva na Praça da Piedade. Os jornais estão abertos nas páginas de emprego, os mendigos estão sobre as calçadas e o camelos correm do rapa. A igreja está cheia e o pedinte sem moedas, o sinal vermelho e os carros em movimento. A trabalhadora sobe a Lapa abafada, olha para o relógio e imagina que o patrão vai chiar. Enquanto caminha e tropeça na preocupação, não vê o moleque que cheira cola atrás da banca de revista, tão pouco a mãe que usa a filha como isca para os gringos. O velhinho de bengala se esquiva do motoboy apressado que dobra a esquina e placas usam pessoas para vender e comprar ouro. Ali a universidade não é universal, mas cercada pela economia dos ricos e pelo ibope das emissoras de tevê.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Escritos sobre a greve - 15º PARTE

Soul Sócrates

Após receber a correspondência das mãos do carteiro resolveu queimá-la imediatamente, mas leu-a com voracidade, confirmando que realmente o delírio que havia tido era de fato um delírio. Entre os envelopes, muitos cartões e rostos resplandecentes desejando felizes dias melhores para todos e todas, especialmente, para você que lê esse comunicado padrão encaminhado através da nossa mala direta, favor assinar com letras GARRAFAIS o documento que certifica a respectiva entrega desta lembrança que encaminhamos para o companheiro com tamanha satisfação e passar bem. O de sempre, teria pensado se não estivesse preocupado com os resquícios de delírios (como seriam essas sobras de pensamentos febris) que ainda passeavam em sua cuca. Pouco entendeu os traçados de linhas que lhe trouxeram até ali, em casa, sentado na poltrona que um dia seu avô, depois seu pai e posteriormente seu padrasto também caíram aos prantos. Procurou não criar mais suposições e se concentrou na leitura das 1979 páginas debruçadas sobre as suas sujas mãos. A leitura começou, mas o pensamento não a acompanhou. A única página que lhe interessava estava no varal, secando e desentranhando as manchas de sangue do seu conteúdo. Enquanto o sol e o vento faziam a sua parte, milhares de militantes imaginárias navegavam nas ondas virtuais em busca das últimas palavras escritas sobre a greve.

Escritos sobre a greve - 1º PARTE
Escritos sobre a greve - 2º PARTE
Escritos sobre a greve - 3º PARTE
Escritos sobre a greve - 4º PARTE

Escritos sobre a greve - 14º PARTE

Sócrates Santana

Os braços foram seguros por algemas que não lhe garantiam segurança. Quem prendeu minhas mãos, teria perguntado o menino, sem perceber que seria covardemente e de maneira inesperada, lançado numa masmorra, num calabouço, numa caverna escondida na selva, num cativeiro, num escuro labirinto de palavras, encurralado num beco sem saída, por uma fácil e perversa disposição dos dedos que teclam e criam esses Escritos sobre a Greve. Não entendeu a super estrutura que se erguia por de trás daquelas imagens que surgiam sem serem anunciadas. Com as pálpebras bem abertas, pensou ter visto uma imagem incomum ser projetada na parede, uma sombra sem singularidade, poucos contornos e difícil interpretação, que penetraria em sua cabeça como se fosse um vírus de computador, estilhaçado e sem rumo, ramificado e sem lugar certo, um hospedeiro, diria um sociólogo nazista. É bom salientar e apartar qualquer tipo de relação dessas imagens propostas com cenas roliodianas, pois essa nevoa sem identidade não entrou em sua mente como nos filmes, quando uma nuvem escura e gasosa avança sobre os olhos da vítima e assume o corpo e os sentidos dela. É semelhante, pois passaram a morar em conjunto, num único lugar, como um cortiço, sem portas, muitos corpos, gritos, roupas pelo corredor e vozes amontoadas, mas não é isto, é menos complicado. Era um delírio. Não aguentou e, finalmente, dormiu com o livro na mão e o envelope nas mãos do carteiro, que ainda iria entregar a correspondência.

A página perdida

Ismael Teixeira

Nasceu em dia contrário. De costas. Ninguém viu seus olhos. Os médicos disseram que parecia que fazia ainda algo lá dentro. Mais tarde, numa página de caderno velho encontrado no estrangeiro, dizia ironicamente que estava terminando seu verdadeiro livro. Chorou. Mas chorou de raiva. Nesses tempos de palavras um escritor não tem escolha. Se não tiver a pretensão de ser deus melhor somente pensar. No berçário notavam uma criança diferente. Sorria. E parecia sorrir para o inferno. Nas ruas os carros andavam para trás, mas ninguém acreditou. Comentaram que era coisa da idade. Acalmaram sua mãe. Freqüentou igrejas. Mas não adiantou. Os desenhos infantis eram estranhos demais. Nada pareciam com o que observava tanto da janela do quarto. Um livro não é quadrado por acaso. Cresceu impassível entre a juventude estúpida do seu tempo. Gostava do silêncio. No silêncio se pode ouvir com atenção o momento que cochilam as horas. Os entre-segundos mais belos. Então escrevia com seus olhos fechados. Não tinha tempo, comentava. Sorria ainda infante quando alertava: jamais pense que você é maior do que o que lê. Leia como quem caminha nas águas. Qualquer descuido morrerá afogado. Um livro no fim é sempre um alerta. Um livro no fim é sempre um alerta. Como qualquer pessoa seu hobby era entortar os ponteiros, amansar a terra, salvar formigas e mariposas nas praias. Como qualquer pessoa acordava cedo para olhar o amanhecer e lembrar de algum verso perdido de Rimbaud, andar de olhos fechados no deserto, ser e não ser alguém. E os anos gritavam. E as pessoas andavam para trás. Mais tarde num livro de sucesso escrevera que os relógios não paravam de cansaço, mas por obediência. Ninguém entendeu. Aos dezessete anos foi encontrado morto pela segunda vez. Pouco depois teria de mostrar suas poesias para alguns psicólogos. Desenhou todos eles. Em todas as figuras ao lado dos médicos havia uma árvore velha. Poesia não mata a fome. Foi tudo o que puderam dizer. Não respondeu. Mas pensou: Mas não mata a alma. Quando morreu ninguém viu seus olhos. Ninguém sabe para onde vão os olhos de um escritor. Um jornalista indiscreto ousou perguntar certa vez para onde tanto olhava – talvez por notar algo vago e distante em seu semblante. Olho para onde posso caminhar livre, respondeu. Na matéria havia algumas frases que causaram constrangimento anos depois: um bom livro é quando se pode lê-lo depois de fechado. Ninguém é capaz de ler o que realmente escreveu um verdadeiro escritor. Ele nunca está aqui, porque não nasce, como todos os homens. Rumores da história ilustram que um bêbado desconhecido havia dito em sua embriagues que vivia na lua porque a lua caminha igual aos planetas, e os planetas caminham igual a deus. Os homens andavam para trás. Mas ninguém entendeu.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Lia, a azarenta

Chico Alves

Lia era igual a Glauber, queria morrer as 42. Sua vida era uma merda total. Seu namorado era gordo, feio, e ruim de cama. Ela nunca tinha gozado. Sentia-se a mulher mais infeliz do mundo. Lia tinha pressa. Achava que morrer era a solução para aquela vida fudida que levava. Se existisse vida depois da morte, talvez lá fosse um pouquinho mais feliz.
Lia queria morrer logo, e até o inútil do seu namoro prometeu ajuda-la. Jorge garantiu que um dia qualquer poderia a estrangular, ou a afogar numa praia qualquer ou até mesmo, dar um tiro seco bem no meu dos peitos. Lia queria morrer. Queria a morte lhe fosse leve. Preferia morrer como nos livros do Garcia Márquez.
Lia decidiu sair para pensar numa melhor forma de se matar. Seu segundo gole foi interrompido por Glória, sua meio-irmã. Depois de uma noite de esbórnia, Lia mal conseguia andar. Entrou no carro, acelerou fundo e, finalmente conseguiria morrer. Seu Fusca 77 capotou 3 vezes.

- Que azar do caralho! Disse uma semana depois de acordar sem um aranhão sequer num quarto vagabundo no Roberto Santos.

terça-feira, 11 de março de 2008

Outra coisa

Helton Fesan

Não era dado a reclamar. Calado de um jeito que incomodava. Jeito de quem não faz questão, de quem não dá assunto, de quem não liga... Mas ligava! Dentro de si, remoia as incertezas que fazem sofrer todo e qualquer um, só que nele bem mais, pois calava. No portão, foi atendido com o sorriso costumeiro. Ela, mal ele entrou, já pulou em seu pescoço munida de beijos e palavras de carinho... Silêncio. Foi surpreendida com um pesar diferente. Sabia que ele não era de algazarra, consignado no seu mundo à parte, porém, naquele momento pareceu-lhe mais denso do que o de costume. O abraço que ele lhe deu, envolveu-a como polvo, chamando-a para o contato com seu corpo e buscando um encaixe perfeito. Ela cedeu ao abraço de polvo e retribuiu. Silêncio. Agitada que era sentiu-se incomodada com a inércia absoluta e, querendo um próximo passo, uma outra ação, sussurrou te amo. Ele continuou mudo em seu abraço. Ela mudou de tática. Correu os braços pelas costas largas buscando, quem sabe, uma excitação que os levariam ao escorregar pelo corredor, tropeçar nos móveis da sala e cair pelo quarto numa loucura... Não aconteceu. O abraço continuou firme, quente e estático. Não era um abraço morto, dava para sentir os sentimentos, as emoções... Mas era parado e ela cansava. Sem movimentos bruscos, nem palavras explicativas. Nenhuma manifestação externa. Só o abraço. Já incomodada, ensaiou dizer algo, mas foi interrompida com um carinhoso e longo psssssssiuuuu. Não havia o que fazer. Restava esperar pela eternidade daquele ato. Vencida, ante o colosso da situação, acolheu melhor a cabeça no ombro daquela parede acolchoada e descansou os braços que já doíam. De repente, pode ouvir o coração de seu parceiro. Batia forte. Teve uma sensação de paz e segurança no ritmo daquele bumbo. Gostou do que sentiu e começou a sentir mais do que sentia antes. Tornou-se parte daquele momento, daquele carinho, daquele corpo... Silêncio. Mas o que seria aquele abraço? Carência, perdão, despedida ou uma outra coisa? Se fosse outra coisa... A garganta secou, o rosto começou a queimar e os olhos se afundaram no peito dele. Começou a chorar compungida. Teve medo de soltar-se do abraço e não mais poder abraçar. Pensou em pedir desculpas, ajoelhar-se no chão, dizer que não era aquilo, mas faltava-lhe voz. Apertou o abraço. Ele retribuiu. Passa o tempo e a voz grave dele ecoou te amo. Ela Aliviou-se. Ficou menos tensa, mas chorava. Sorriu e entre soluços disse também te amo amor. Não era aquilo. Ele folgou o abraço, se olharam. Ele balbuciou que queria dizer... Parou e a abraçou-a de novo. Ela já não retribuiu do mesmo jeito. Agora se perguntava o que houve. Silêncio.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A morte de Juca, a elipse ou um conto cinematográfico.

Chico Alves

Juca tinha acabado de acordar quando Luiza gritava por seu nome no lado de fora da casa. A noite anterior tinha sido uma daquelas. Nem ao menos se lembrara como chegou em casa. A roupa encharcada de cerveja não deixava dúvidas.
Luiza gritava e batia na porta de seu apartamento, decidida a por um ponto final naquela situação: ou ele parava com as farras homéricas, ou ficaria sozinho no fundo do poço. Ele preferiu a segunda opção. Luiza nem olhou pra trás, pegou suas coisas espalhadas pela casa, enxugou as lágrimas e partiu.
Ainda bêbado, Juca se barbeou, tomou banho, vestiu sua melhor roupa e saiu apressado. O cigarro de Juca ainda queimava quando Luiza apareceu na porta no Salvador Shopping, de mãos dadas com Felipe. Antes de entrarem no carro, Juca correu ofegante, e gritou. Agora era ele quem estava disposto a dar um fim naquilo tudo.
Enquanto Luiza o observava, Juca corria em direção a passarela, corria, corria, corria. Parou olhou para Luiza pela ultima vez, enxugou sua lágrima e partiu. Seu corpo caiu violentamente no capô de um ônibus que fazia a linha Lapa x Cajazeiras. No bolso da sua calça um pedido de desculpas. Juca finalmente pararia com as farras. Luiza chorava e tentava reanimar Juca com uma cerveja estupidamente gelada.

Escritos sobre a greve - 13º PARTE

Sócrates Santana

Depois de tossir com a poeira levantada pelo giz, dobrar a rua das flores que não morrem e contornar numa guinada a avenida jornalista beltrano sobrinho e terceiro, finalmente, o menino chega. Não importa aonde, quando se chega, o sentimento é de alívio, as pernas logo de afrouxam e o restante do corpo desaba, como se uma cama branca e macia estivesse abaixo das preocupações de outrora, caindo-lhe uma carta sobre o umbigo, após deitar-se numa sensação virtual de tranqüilidade. Mal fechou os olhos, coube-lhe abri-los novamente, bem verdade, o corpo já revigorado pelo universo de pensamentos que permearam seu andarilho percurso, tendo-o pela frente um envelope incólume. O céu retorna à escuridão, as páginas são pretas novamente, e tensão e angústia voltam à cena, preenchem o enredo e olham para o inconsolável semblante do menino de braços amadurecidos e rosto levemente áspero pelos pêlos que cresceram como grama rasteira no terreno baldio ao lado de casa, que aterrorizado pelo comunicado contido na carta, que dizia, o indicado militante foi convocado para um interrogatório, um depoimento, como queria chamar, a ser prestado no primeiro quartel civil dos sargentos rebeldes e grevistas de dois mil e um, vinculados ao nonagésimo oitavo batalhão das armas confiscadas pela rede mundial de narcotraficantes amigos dos amigos dos homens de lá, na estrada das velhas histórias sobre a ditadura militarizada, número exilado Santiago, Chile, foi pego em desespero e arremessado para um túnel escuro e infinito. Abruptamente o cenário mudou, uma cadeira, porta trancada, recortes de revistas, jornais e panfletos nas paredes, além de imagens multimídias que projetavam cenas históricas de grandes greves realizadas no ABCDário das cidades centrais dos proletários, um grupo de homens e mulheres vestidos com macacões e munidos de ferramentas, apontados como os principais idealistas da primeira greve geral. A porta, trac, trac, abre-se com dificuldade, ouve-se murmúrios e um refletor ilumina o livro seguro pela mão esquerda do menino. A mesma mão esquerda que arrancou das vísceras de um ancião a verdade inaudita. Uma enxurrada de perguntas veio em seguida e nenhuma resposta. Muita agonia. Pouco oxigênio. Pressão.

Escritos sobre a greve - 11º PARTE
Escritos sobre a greve - 12º PARTE

domingo, 9 de março de 2008

A pequena bela

Ismael Teixeira

No limiar da luz. Entre o fim e o infinito. Um arco-íris em preto e branco anunciava que o passado ficou ainda mais distante. Pequeninas mariposas estouravam no ar como se notas de piano voassem. Milhares delas afagando o ar inundaram a janela de um pequeno quarto afastado de uma cidade afastada. Mariposa em algum lugar significa mudanças e todos aqueles bichinhos haviam avançado humildemente aquele cômodo carregando um chapéu nas mãos como quem pedisse licença. Antes de estourarem olhavam fixamente para o silêncio e se despediam. Cada uma numa nota solitária chamava a morte de todas elas que vinham e vinham soando uma valsa nua e triste. O quarto, inundado de uma luz azul, permitia vislumbrar alguém que dançava. Parecia uma pequena menina que valsava sozinha com aquela noite de corações perdidos. Ele andava numa rua deserta. A lua, as velhas janelas solitárias, pequenas chamas de luzes o seguiam. Fantasmas sorriam em cada esquina perigosa. Os passos de velho destemido estalavam monótonos no piso de pedra branca; pareciam mal tocar no chão. Escorregava lento no piso gelado como quem escrevesse dormindo. Na rua não havia nada além de corujas brancas languidamente vagas resmungando bêbadas qualquer bobagem. Sapatos enlameados, um alforje de couro deixava o ar mais maduro com sua presença conhecidamente masculina e sedutora. Um homem é homem até que se prove o contrário. Mulher não. A garotinha de mãos tão frágeis parecia ter conhecido o amor apesar da idade. Seu quarto guardava as cores, os detalhes ainda de uma menina, porém àquela noite, parecia deixar escapar um olhar diferente. No leve sorriso um borrão quase imperceptível de quem já não era mais primavera. O homem usava um cachecol azul e alguns cachos escorriam de uma boina gasta. Apesar do frio parecia andar sobre as águas. Na visão de cima, talvez do quarto andar, lembrasse um caubói cansado se houvesse mais amarelo na paisagem. Mas como me posicionei de costas não passava de um homem comum atrás de alguma diversão. Quem sabe um boêmio de uma taberna próxima. Havia notado ainda marcas de batom na sua camisa. Exalava perfume barato. No quarto ainda estouravam as mariposas. Estalavam como se mãos deslizassem num aparelho acústico. A jovem rodava, rodava, rodava a valsa triste como se não houvesse culpa de descobrir ser mulher. De olhos fixos no mistério postava as mãos delicadas como se dançasse graciosamente com um elegante cavalheiro. Seu cabelo, porém, desfeito. A camisola de urso, porém, amassada. A cama ainda quente. Após alguns dez metros notei que relâmpagos desenhavam flores e nuvens como cachos de uvas estavam prestes a espremer violeta a derramar vinho nas paredes. Nas mãos do pequeno rapaz hortênsias que como ele pareciam se importar com o tempo e andavam cada vez mais velozes. O coração apressado ecoava nas ruas próximas. Parecia sutilmente apreensivo, ou mesmo temeroso. Ninguem sabe ao certo quando um homem está apaixonado. A jovem flutuou até o banheiro e deixou que a chuva lavasse seus detalhes até que novas formas tomassem volume. Madeixas, pêlos, seios enchiam como água toda aquela tempestade. Suas mãos firmes tocavam seu corpo como se conhecesse onde guardava seus pensamentos, seus desejos. Mentia para si mesmo e sabia porque mentia. O garotinho olhou rapidamente para a sacada de um prédio velho de esquina. O vazio em seu peito não era mais vazio que aquela rua e titubeante avançou para as escadarias deixando pingar gotas violetas nos degraus. A grande lua a observava do quarto. Vagarosamente ela apertava seus botões e espartilhos. O batom vermelho provocava o espelho e combinava com o rubro e preto das suas roupas íntimas. A companhia tocara tímida. Ela sorriu. Ele pequenas voltas em frente à porta. Ela como se tivesse outras coisas para fazer se projetou devagar para receber o sujeito. Ele trêmulo se preparava para encenar qualquer cena de efeito. Quarto. Sala. Porta. Maçaneta. Olho mágico. Sorriso de fêmea. Olá de criança. Um preço.

*Agradecimento especial a Ana Bárbara - obrigado pelos toques.

sexta-feira, 7 de março de 2008

A mesma de tempos atrás

Renata Belmonte

Se você me perguntasse, responderia assim: cresci observando minha mãe colecionar vestidos para o grande dia, a data do retorno que nunca aconteceu. Às vezes, me escondia em seu quarto, apenas para tentar ser parte de seus delírios, cada roupa uma nova dramatização para o fim da longa espera. Vestir-se significava experimentar um pouco da felicidade projetada em seus sonhos. Quando morreu, tive dúvidas sobre qual deles ela deveria usar. Optei pelo que comprou por último, um longo rosa seco com leves bordados em prata. Imaginei que em seu enterro, ela talvez conseguisse o que tanto almejava. Ledo engano. Em cada palavra sentida, a ausência do único que importava. De preto, despi-me para sempre da esperança de qualquer aviso. E fiz a escolha pela nudez, transformando-a em profissão.

Apenas se você me perguntasse, eu responderia. Convivo bem com silêncios, com a falta de explicações. Fui menina criada em cantos, tranças feitas pelas empregadas, órfã de pai, intervalo incômodo da vida da mãe. Por isso, diariamente, sou abandonada e não me importo.

Eles chegam sorrindo, camisas impecavelmente passadas, são suas mulheres que os vestem para nossos encontros. Fazem da mesma forma com as crianças, quando as arrumam para as festinhas de aniversário dos colegas. É uma longa tradição. Crescem acostumados a mandar, exigir, dispensar. Presto atenção em seus rostos redondos, escorregadios. Não, não há qualquer vestígio de remorso ou culpa. No final, quando já estão satisfeitos, colocam o dinheiro em cima da cômoda e vão embora agradecendo, repetindo as mesmas palavras que diriam para qualquer vendedor de cigarros. Alguns, enquanto caminham, ainda olham para trás, têm esperança de compreender o que lhes falta. Outros preferem ignorar a existência de razões. Em nenhum caso, sinto-me magoada ou comovida. Não me cabe essa parte. Compreendo muito bem o papel que represento na vida das pessoas.

A amante. Nada mais ou menos que isto.

Confesso que sabia que voltaria a me procurar. Esta porta sempre esteve aberta. Muitos são os que passam ou passaram por ela. Seria estranho que logo você fosse a exceção, o vácuo da minha história. Guardo ainda, num álbum de aspecto infantil, aquela nossa fotografia. Aquela em que estamos abraçados e felizes. Quando não me sinto vigiada, gosto de revê-la. Um dia feliz, eternizado em um pedaço de papel. Às vezes, chego até a recriar as sensações daquele momento. No entanto, não pense que faço o mesmo que minha mãe. Já lhe disse, muitos são os que deitam e deitaram na minha cama.

Sim, durante esses anos, estive lhe aguardando. Porque a sua vinda, o nosso encontro era uma coisa natural, previsível.

Apenas isso. A amante.

Olhe para mim. Não sou a mesma de tempos atrás.

Convido-o para entrar.

Novamente, nós.

Você, sapato preto de cromo alemão, passos fortes, mesmo perfume daqueles tempos. Reconheço-o, de pronto, através dos sentidos menos festejados. Chegou a hora. Sou golpeada, estremeço por dentro, fico gelada, sinto medo. No entanto, não demonstro qualquer surpresa ou ansiedade. Não me permito este tipo de atitude insensata. Minha mãe dizia que chegaria a época em que eu a compreenderia, saberia o que era amar e sofrer. Sim, tenho esse homem na minha frente, só que não lhe concedo tamanha liberdade, possuo um enorme respeito por mim. Estou numa camisola clara, sento-me à beira da cama. Duas taças de vinho nos esperam, na pequena mesa de sempre. Peço que me informe sobre suas fantasias e desejos mais secretos. Ignoro-o quando me pergunta sobre as minhas preferências. Levanto-me, acendo um cigarro e fumo de forma sensual, como faziam as mulheres elegantes de antigamente, as mesmas que sempre ameaçavam minha mãe, em seus devaneios mais angustiantes.

Ela sempre soube que eu seria assim. Desde criança, quando me escondia em vestidinhos cor-de-rosa e repreendia a minha maneira de falar, já tinha certeza de que eu pertenceria a outra categoria.

Brindamos. Nossos cálices se chocam, interagem. Três goles para jamais esquecer. Uma nova chance. Nossos corpos, finalmente, se aproximam. E não há mais nada, além da pequena distância existente entre nós.

Faz silêncio, no universo. Em pouco tempo, começará mais um espetáculo de amor, vida e destruição. De longe, sei que alguns rezam para que nada de mal ocorra. Julgam o que sentimos, condenam meu comportamento. Outros, sim, aqueles que já viveram isso, aguardam ansiosos o momento do encontro, desejam reviver seus sentimentos pretensamente acabados. Tenho consciência de que com minha mãe é diferente, ela está em posição única, híbrida, confusa, dramática. Receia que eu consiga realizar o que ela sempre quis. Meu amante está diante de mim, meus anos de espera não foram em vão. Consigo vê-la, ao nosso lado, parada, observando dividida, cada ato, cada segundo. Sei que não chora, seu desespero é mudo, como o das santas arrependidas que povoavam o altar de nossa velha casa. Imagino que tenha uma vela nas mãos, apesar de não haver clareza sobre no pedido. Encontra-se em posição única, híbrida, confusa, dramática. Não sabe ao certo o que é mais forte, o amor, a inveja, a dor, o desejo ou o medo. Prevê que não haverá final feliz, em nenhuma das hipóteses. Seu vestido é longo, rosa seco com leves bordados em prata. Está pronta. Gostaria que tudo tivesse sido diferente em sua vida. No entanto, não há mais espera, chegou a hora. A menina cresceu, ganhou seios do mesmo tamanho dos seus, tem seus olhos, são seus olhos que estão fixos nos de seu amante. Apenas lhe resta aguardar. E, de alguma forma, torcer. Porque, afinal de contas, ainda são uma família.

Ponho meus lábios à disposição dos seus. Abro minha boca lentamente. Nossas línguas se acham. Nos beijamos.

Passamos a reconhecer nossos corpos. Sim, não sou a mesma de tempos atrás.

As roupas como tapetes, as peles nuas, juntas, desejando ser apenas uma. Toda a minha vida eu esperei por esse dia. O retrato, eles sorrindo, abraçados e felizes. Sinto-me muito mais bela quando estou perto de você. Ele sobre ela, o toque, as carícias. Os beijos, as línguas em choque, o hálito a denunciar seu passado, leve sabor do vinho, a bebida dos amantes. Como num filme. O cheiro, o cheiro dele, de seu perfume, de sua pele, o perfume da pele, o cheiro da pele dela e dele, não há mais como distinguir, individualizar. Vamos, faça o que quiser, meu corpo lhe pertence. Jamais se deve dizer isso a um homem, ela sabe, mas, desta vez, não se importa. As partes, os olhos fechados, os sussurros, gemidos, a intensidade, força, a força dos longos anos de espera, o prazer. O que Deus uniu, ninguém separa.

Desde que nasci, já estava escrito. Minha mãe sempre previu que, um dia, isto iria acontecer.

Ouço os latidos dos cães, logo compreendo: transmitem a notícia pela noite. Estamos em silêncio, todas as palavras foram mortas. Você permanece inerte, parado, não pronuncia qualquer gesto de carinho. É esse deserto que me faz, subitamente, perceber o motivo de sua demora: nos encontramos em lados distintos da cama. Como em todas as nossas vidas, nas quais pertencemos a lados opostos do mundo.

Sofro, sofro, sofro. Nem o relógio se compadece. Insiste em me dizer, repetir que, em alguns minutos, você irá embora. Do mesmo jeito, da mesma maneira que fazem todos os outros.

Procure saber qualquer coisa sobre mim, como foram os meus anos, se sou feliz, se tive um cachorro, se me formei, como entrei para essa vida, qualquer coisa, o mínimo, qualquer coisa.

São os cães, em seus uivos noturnos, que me avisam, relembram: a amante. Nada mais ou menos que isto.

E apenas se você me perguntasse, eu responderia.

Enquanto se veste, passo a me lembrar de minha mãe experimentando seus vestidos, glória e decadência, em questão de minutos. Estamos no final do grande dia, da data do retorno. Não há mais dramatização para o fim da longa espera. Ela se encontra rente à cama, linda em seu vestido rosa seco com leves bordados em prata. Finalmente chegou a boa hora.

Sim, pai, agora, você vai nos pagar.

Você coloca a quantia acertada sobre a cômoda. Acompanho-o até a porta. Vejo ir, sem olhar para trás, meu primeiro amante, aquele que me privou de tanta coisa, aquele que fez com que minha mãe, eternamente, me culpasse pelo seu abandono.

Trouxe-o, de volta, mãe. Pare de me atormentar. Fique em paz. Descanse em paz.

Como não estou sendo mais vigiada, revejo a fotografia mais bonita que já vi. Um dia de sol, no parque. Nós, abraçados e felizes. Não tenho certeza. Caso seja realmente você, os anos lhe foram bastante violentos. Aliás, para todos nós.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Notas mínimas

Sócrates Santana

1
O relógio desenhava quatro horas em ponto, a sinaleira da Avenida Manoel Dias iria abrir em nove segundos, faltavam dez minutos para a esposa bater o cartão e três prestações para quitar o crediário. Por de trás do volante, um semblante pálido e assustado. Verde. Engatou a segunda e sentiu uma mão ágil puxar o seu relógio.

2
Saiu avoado. Tão rápidos quanto às mãos eram os pés. Calçava trinta e oito. Pés pequenos para um moleque de dezesseis anos. Dobrou a Rua Brasília e encontrou na casa vinte e cinco, um senhor de meia idade que consertava relógios. Ofereceu a peça por quarenta reais. Ganhou vinte e cinco.

3
O velho repassou a peça por setenta e cinco reais. O rapaz de terno número quarenta guardou o exemplar na pasta. Deu sinal para o alarme do carro e entrou sem maiores sobressaltos. Dirigiu até um armarinho, onde compraria uma caixinha para o relógio por apenas um real. Embrulhou o mequetrefe e saiu correndo até a casa trezentos e cinqüenta e três, avenida Paulo VI. A irmã mais velha abriu a porta e lhe deu um longo abraço.

4
Depois de desembrulhar o presente, ela suspirou assustada. O relógio de meu marido. Eram dezoito horas. Pensou que fosse uma brincadeira do irmão caçula. Ele disse que não. O marido aturdido pulou no pescoço do rapaz. Muita correria dentro de casa. Um grande mal entendido. Foi a conclusão. O telefone tocou.

5
Apanharam o garoto. Na verdade mataram-no. Morreu com uma cédula de cinco reais na mão. Iria pagar uma dívida de cinco reais aos traficantes do bairro. Um policial avistou a movimentação e atirou sem mais explicações. Logo a imprensa chegou no local. Eram sete horas e quinze minutos da noite.
6
Sete horas da manhã. Ainda faltavam dois minutos para o bolo ficar no ponto. O carteiro lança o jornal pela janela. Um rapaz morreu após uma troca de tiros com a polícia por volta das sete horas e quarenta e cinco minutos da noite. Descrevia o lead. O motivo. O de sempre. Tráfico de drogas.
7
Uma semana atrás. Um policial conversava com um adolescente. Ele cobrava o dinheiro referente à proteção da quitanda da mãe do garoto. Vinte reais. O menino explicou que não tinha a quantia. O policial deu-lhe um murro no estômago e um prazo de uma semana. Não deu tempo.

Lembranças das águas

Mel Adún

Como chove em São Salvador City! Foi exatamente nessa época do ano que nos conhecemos. Na época única por essas bandas quando fazemos amor embaixo dos lençóis. Lembro de como dormíamos abraçados, enroscados no calor do outro. Tão dispostos a aceitar o nós. Tão singular no plural. O barulho da água que caía do céu ditava o nosso ritmo, arrítmico. Lembro que a sua perna sobre o meu culote não me incomodava; como era bom te sentir dentro de mim, dono de mim. Não possessivamente. Eu era sua porque de mais ninguém poderia ser, nem de mim mesma; assim como você era meu. O nosso quarto era a África tão perto quanto distante; éramos majestades em cima da cama. Às nossas descobertas, nossas bocas nunca deixavam de se encontrar.
O rei de azul e a rainha de amarelo sob o teto do castelo que era qualquer lugar que abrigasse a nossa vontade. Quanta vontade! Doce vontade. Às vezes suaves outras nem tanto. Entre aquelas tantas paredes ficou registrada a nossa passagem. Nenhuma temporada vai ser como aquela. Nenhuma gota de aprovação dos deuses cairão no mesmo lugar. Ninguém vai sentir o que sentimos.
Como é diferente ver a chuva cair agora sozinha. Como é estranho ser eu novamente.
Nessas noites de chuva sinto saudades de nós. Quando euteamos eram verdades e sentíamos até um frio na barriga...

terça-feira, 4 de março de 2008

Ana

Daniel Pellizzari

Certa noite a contorcionista do Circo Garcia não apareceu para o espetáculo. Ficou trancada em seu trailer, ouvindo vozes e passando muito mal, com pontadas na cabeça e tossindo sem parar. Continuou assim durante muito tempo, preocupando seu chefe Walter Garcia, o homem da cartola, e seu marido Geraldo, o atirador de facas. Quando completou duas semanas longe do picadeiro, a contorcionista do Circo Garcia espirrou com muita força e sentiu algo saindo de sua narina esquerda. Quando abriu os olhos (lembramos aqui que é impossível espirrar de olhos abertos) deu de cara com um pequeno homúnculo de aproximadamente quinze centímetros de altura, coberto de muco, que lhe sorria sentado no chão. No mesmo instante cessaram as vozes, as pontadas, a tosse e o furor uterino do qual ainda não tínhamos falado nem vamos falar, pois não tem o menor interesse para a vida de Eduardo, que é como o homúnculo foi batizado.

Para alguém que não nasceu, surgiu, Eduardo teve uma infância atribulada, apesar de já ter nascido adulto. Rumores sobre a história milagrosa de seu nascimento acompanhavam a trupe do Circo Garcia por onde quer que andassem, o que despertou a coceira da ganância em Walter Garcia e sua cartola. Eduardo, o filho da contorcionista, começou a ser exposto na tendinha de aberrações que costumava ser erguida ao lado do circo. Passava dias e noites sendo observado, o que muito lhe incomodava, principalmente quando alguém lhe atirava pipocas. Após alguns meses cansou deste tratamento e resolveu fugir. Vestiu uma espiga de milho com suas pequenas roupas, feitas com carinho pela Mulher Barbada, e escapuliu por baixo da lona. Anos depois aconteceu um incêndio no Circo Garcia e a contorcionista foi uma das vítimas fatais, mas isso não faz o mínimo sentido nem tem relação com Eduardo, que a esta altura estava vivendo contra a sua vontade em um laboratório muito asséptico.

O Dr. Krleza possuía uma interessante teoria interessante sobre a loucura, baseada em sua crença de que o ar estava cheio não apenas de bactérias, mas de pequenos homúnculos que poderiam ser aspirados e começar a viver dentro do crânio de pessoas normais, compartilhando seus pensamentos e assim causando delírios e outras afecções da mente. Eduardo era a prova empírica de que necessitava para sedimentar o fato da existência dos pequenos homúnculos. Mas, infelicidade profunda, eles nunca se conheceram e nem ao menos ouviram falar um do outro, provavelmente pelo fato do Dr. Krleza viver na Croácia e Eduardo no Brasil, mais precisamente em uma cidade que não tem importância para esta narrativa. O que nos importa é que depois de vagar pelo mundo algum tempo após sua fuga, Eduardo concluiu que as ruas eram perigosas demais e se deixou ser adotado por uma patologista solteirona viciada em trabalho e em óxido nitroso, que morava no laboratório e passava grande parte do seu dia rindo sem parar e utilizando os então dezoito centímetros de nosso homúnculo em certa atividade que não temos competência, desenvoltura ou desinibição para descrever em detalhes.

Tal período teve grande influência no mau humor apresentado por Eduardo ao completar vinte centímetros de altura, algumas semanas depois de abandonar suas funções involuntárias no laboratório. Morava agora em um shopping center, onde inclusive havia arranjado um emprego como duende de Papai Noel. As crianças e seus pais imaginavam que ele era uma espécie de pequeno autômato muito realista, e enchiam o recinto com ruídos de admiração. Nos intervalos, o Papai Noel bebia um pouco de rum de sua garrafinha metálica e revelava a Eduardo toda a sua estranha alegria de ter criancinhas sentadas em seu colo. Eduardo permanecia entediado em suas tarefas de duende, que lembravam demais seu período na tenda das aberrações, até que no início de uma noite que nada tinha de especial, uma mulher que estava de mãos dadas com seu filho na fila do Papai Noel deu um espirro muito forte, de boca aberta, lançando muco e perdigotos para todos os lados. Juntamente com estes, arremessou também uma mulherzinha sorridente de dez centímetros aos pés do Papai Noel. Ao vê-la, coberta pela gosma brilhante, Eduardo foi tomado de tamanha alegria que começou a inchar. Inchou sem parar, como um baiacu, até começar a flutuar pelo shopping, para espanto dos freqüentadores, que desviaram a atenção da mulherzinha recém-surgida. Em certo ponto a felicidade de Eduardo chegou a um ponto em que seu pequeno corpo explodiu e seus fragmentos pulverizados caíram devagar, como neve fina, sobre a decoração natalina do shopping.

Nas linhas acima lembramos de Eduardo, mas na verdade gostaríamos de contar a história de Ana, que nasceu normalmente através de uma vagina, após nove meses de gestação tranqüila, e cresceu até quase um metro e setenta e quebrou o braço aos nove anos mas se recuperou bem e foi uma criança e uma jovem feliz e casou com o belo e bom Gabriel e teve três filhos obedientes e morreu velhinha em uma tarde depois de tomar chá com biscoitos de gengibre. Mas ela morreu no parto, coitadinha, e graças a isso não viveu e nada temos o que contar sobre ela.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Escritos sobre a greve - 12º PARTE

Sócrates Santana
As coisas começaram a ficar evidentes, nem claras, nem escuras, evidentes. A unificação dos sindicatos, a falsa impressão que o partido era o governo, que o velho barbudo sofreu um golpe e uma liderança inimaginável assumiu o poder, que os nomes das ruas mudaram sem consulta prévia, que as eleições que aconteceram não aconteceram, e que a greve perdeu a validade, caiu em desuso, e que os Escritos sobre a greve são páginas de uma história em construção, que o livro no sovaco do menino de unhas por fazer não ensina nada, não comprova nada e que a qualquer momento todas as informações que possuía iriam colocar a sua vida em perigo, pois, logo logo uma carta iria cair sem maiores justificativas em suas mãos e nesta estaria escrito os próximos passos dessa novela. Depois de tropeçar em devaneios, olhou para o lado e viu uma menina sentada sobre um pedaço de banco de madeira, onde rabiscava um trecho de um poema "Arte longa vida breve Escravo não se escreve Escreve só não descreve Grita grifa grafa grava Uma única palavra Greve", parecia realmente evidente, ainda que o que parece possa não ser, ainda que o que é realmente seja uma convenção, ainda que a evidência seja uma dúvida, parecia, realmente, uma evidência, que logo se perdeu com o esfregão dos olhos de uma menino de braços sujos de sangue e verdade. A menina foi apagada como linhas de giz e o final da rua deu vez a próxima esquina, dobrada por pernas fragéis e orientadas por braços capazes de arrancar das entranhas de um homem todas as respostas de suas dúvidas, se assim for preciso.

Escritos sobre a greve 1º PARTE
Escritos sobre a greve - 2º PARTE
Escritos sobre a greve - 3º PARTE
Escritos sobre a greve - 4º PARTE
Escritos sobre a greve - 5º PARTE
Escritos sobre a greve - 6º PARTE
Escritos sobre a greve - 7º PARTE
Escritos sobre a greve - 8º PARTE
Escritos sobre a greve - 9º PARTE
Escritos sobre a greve - 10º PARTE
Escritos sobre a greve - 11º PARTE

Viajens de Walter

Katherine Funke1

Duas palhetas, um cortador de unha, cinco camisetas, quatro bermudas, um chinelo. A mochila ia ganhando peso. Walter fazia a cabeça e a mala no ritmo de uma tartaruga.
2
Antes de sair, tocou "Don't let me down" no violão. Era uma pena deixar o instrumento em casa, mas havia decidido levar apenas sua mochila. Quanto mais leve a bagagem, mais destinos possíveis haveria. E o violão estaria sempre à sua espera, em casa. Se houvesse volta.
3
Ia saindo, já no portão, quando avistou Ricardo a chegar. Pensou em se desvencilhar do amigo, fingir pressa. "Mas é um bom amigo", pensou, "é um ótimo presságio". Ricardo mal sentou, acendeu um cigarro sem filtro e começou a chorar. Walter, por ser médico, era o único que poderia ajudá-lo.
4
Ricardo era hipocondríaco, tinha problemas não muito graves. Sua voz monótona cortava ecos fragmentados de "Don't let me down" nos tímpanos do amigo. O que se via nas retinas internas de Walter eram objetos que agora pareciam realmente intocáveis - o açaí da esquina, a passagem do avião, a mão da menina nova que conheceria um dia. Ricardo percebeu o silêncio do amigo. Não se zangou; levantou e saiu. Walter foi junto - e então começou a falar.
5
"Não se preocupe com suas dores nas costas, você está sedentário e deprimido em conseqüência. É só se mexer um pouco e tudo melhora", Walter falava, a caminho do ponto de ônibus. Olhava para a frente, dava passos largos e sorria, por causa do ar fresco de chuva por vir. Ricardo andava com esforço. "É, pode ser isso mesmo", resmungou. Entraram no ônibus cheio, onde mal podiam conversar. Ricardo saltou antes. Em quinze minutos, Walter estava diante do balcão de uma agência de viagens. "Por favor, que vôos vão sair na próxima hora?", perguntou.
6
Beagá, Floripa, Manaus e Rio", disse a moça. Walter perguntou os preços. Indeciso, tomou um café de quatro reais, fez contas em sua caderneta. Concluiu que aviões, aeroportos e táxis seriam caros demais. Se quisesse passar dias e dias fora, em diferentes lugares, teria que economizar. O susto não o entristeceu, ao contrário. Walter, em silêncio, agradeceu à vida pela oportunidade de fazer algo diferente, enfim. Desceu cantando até o ponto de ônibus, ultrapassou-o e caminhou ao longo da Estrada do Côco, parando vez ou outra para pedir carona, tal como tinha visto em filmes.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Sobre os manos e os atalhos da vida...

Walter Takemoto

A partir dos 8 anos (isso quer dizer quase 44 anos atrás!) saí da Vila Mariana e fui morar lá no Alto da Vila Maria, quebrada da zona norte de São Paulo, de ruas de barro e casas pobres e cortiços, quase todas ocupadas por nordestinos e negros. Tive lá os meus primeiros amigos de jogar bola na terra batida e pés descalços, de nadar nas lagoas das águas do rio Tietê, de pegar rãs nos brejos, de jogar bilhar e pebolim. Foi lá também que fui vender sorvete nas ruas, fazer carreto nas feiras, carregar tijolos nas obras.

E a grande façanha foi ser lateral direito no Arsenal F.C. com 13 ou 14 anos, no meio de um monte de homens. Todos os domingos saía o time de várzea no ônibus lotado, em direção a uma outra vila qualquer, pobre do mesmo jeito; uns bebiam a cachaça direto no gargalo, outros fumavam o bagulho de todo dia, enquanto o surdo comia solto. Era a diversão de todos e a paixão de outros, como do roupeiro, que não jogava, mas tava lá, distribuindo e recolhendo as camisas gastas, sujas e fedidas de suor. E tinha os que torciam e que, na falta de rojão, comemoravam dando tiros pro alto, pois que o instrumento de trabalho estava sempre lá, na cinta e ao alcance da mão.

Entre esses tinha o Ceará, bicheiro, que virou lenda por trocar tiros sozinho com a quadrilha do Zezinho da Vila Maria ( bem em frente à casa em que eu morava), uns três ou quatro, e levou tiros na perna, no braço e na barriga e saiu andando sem ajuda de ninguém e pôs todos pra correr com um revolver em cada mão. E continuou dono da banca, enquanto que o Zezinho, por ironia do destino, morreria um tempo depois cheio de balas no estacionamento que fizeram na casa em que eu tinha nascido lá na Liberdade!

E jogava e andava nas quebradas comigo o Jafra, negão de seus 1,80 metro, bonito e forte como um touro, com seus 17 anos. O Jafra tinha o sorriso largo e bonito e era meu chegado do peito e de fé. De vez em quando, eu, lá com meus 15 anos, treinava boxe com ele. Certo dia, o Jafra saiu no braço, ninguém sabe muito bem por que, com o Tonhão, dono de boca de fumo, e não deu outra. O Tonhão apanhou feio. E o que destrói a história de qualquer dono de boca é correr a história de que apanhou de um moleque e ficou por isso mesmo. Dias depois, o Jafra morreu na ponta da faca do Tonhão. E o Tonhão, tempos depois, morreu na cadeia de Aids.

Periferia? Não, “periferida”

Como o Jafra, muitos morreram ou foram para a cadeia ou se acabaram na bebida e nas drogas. Baianinho, Vilson, Samuca, Boca de Sapo, Ari e todos os outros que morreram na memória. Lá naquelas ruas de barro vermelho aprendi o que é viver na “periferida”, os códigos que dão significado a um mundo que é regido por outros parâmetros de convívio e sobrevivência. E isso tudo é pra que mesmo?

É pra dizer que a ida do MV Bill lá na Daslu não me sai da cabeça!

MV Bill, parafraseando (acho que é esse o termo) o velho compositor baiano, como “quase todos os pretos e quase todos os pobres”, nasceu lá em uma quebrada do Deus me livre, onde as coisas são o que são, para os que não são nem pretos e nem pobres. Por alguma razão que desconheço, talvez a música quem sabe, o MV Bill, tal qual o Mano Brown, ou o outro Brown que o Mano esculhambou na MTV, o seu Jorge, o Robinho, ou qualquer outro preto e pobre, teve um atalho na estrada do destino de todos os outros tão iguais que morrem como o Jafra, de morte matada, ou como o Tonhão, de morte morrida na cela de uma cadeia, ou dos esquecidos que morrem e não sabem e teimam em continuar fingindo que estão vivos por aí afora.

E o MV Bill se tornou um rapper. E o MV Bill virou líder da comunidade dos quase todos pretos e quase todos pobres. E o MV Bill resolveu filmar e escrever sobre todos os outros que não encontraram o atalho de saída por algum lugar da estrada do destino de todos eles. E o filme é tão frio, tão seco, tão feio e tão nada, como é a vida de todos que lá estão. E onde é que ficam a alegria, a camaradagem, a solidariedade e tudo mais que sobrevive nas vilas e favelas?

Tudo muito bem, tudo muito bom. Bater laje, comer feijoada e tocar pagode no fim de semana é o que há. O mutirão pra autoconstrução barateia levantar o barraco ou o puxadinho. Dividir o quilo disso e daquilo demonstra o quanto a miséria forja laços de solidariedade e provoca o que de melhor pode a generosidade humana. Que os anjos digam amém!

Mas não é da alegria nascida da miséria que nós, brancos e não pobres, falamos durante anos a fio, ou, como já falaram, não é o pão e o circo que pretendíamos fosse o destino da humanidade.

O atalho salvador e consolador

É ótimo oferecer esporte, capoeira, dança afro, percussão, e coisas do tipo pros meninos e pras meninas dos morros e favelas. É lindo vê-los lá, praticando e sonhando um dia subir num palco e se apresentar pros quase todos brancos, todos intelectuais, todos emocionados, por verem os pretos e pobres que arrumaram um atalho que os tirou das drogas e do crime que apavora os brancos e ricos. Que sucesso é ver uns poucos se safarem, pelo menos não precisamos mais sentir a culpa pelos outros muitos que estão lá, no caminho que lhes reservamos!

O que acontece na vida real é que viramos as costas pra periferida, que purga dia após dia. Qual foi o governo que assumiu a responsabilidade política de enfrentar o problema da miséria, do desencanto, da desesperança e da subvida que marca milhões de brasileiros ? Não venham me falar de bolsa disso ou bolsa daquilo, pois prefiro as bolsas rodantes das dasputas, pois elas são profissionais!

ONGs? Ótimo, mas cadê elas pra dizerem alto e bom som que tudo que fazem nada vai resolver ? Cadê elas pra juntarem o povo e lutarem pra que tudo que fazem se torne de fato políticas públicas? Pois, ao fim e ao cabo, trata-se de dizer que o que importa é um governo que de fato transforme em prioridade o fim da exclusão social.

Mas, e o MV Bill? Tava me esquecendo dele! Foi lá o negrão na Daslu, lançar seu livro. Escândalo! Como é que pode o MV Bill, rapper, saído lá da favela, sobrevivente, que se apresenta com um cano na cinta, porta-voz dos fudidos “que não podem foder fudido”, aparecer ao lado da dona Eliane sei lá o que, trambiqueira de luxo?

Na hora em que vi a foto do MV Bill sentado com a dona Daslu pousando seu rico braço sobre seu ombro fiquei puto, indignado e não acreditava no que via. Passados os dias e a visceralidade do momento, pensei cá com meus botões:

– E os artistas que beijam a mão de ACM e outros tais, pode? Condenamos eles ao inferno e jogamos no lixo seus CDs?

– E as ONGs que conseguem milhões de multinacionais, pode? Vamos dizer que elas fazem um trabalho maravilhoso e precisam desses financiadores?

– E os partidos ditos de esquerda que ganham milhões “não contabilizados” pode? Vamos votar e eleger seus dirigentes socialistas?

Coerência de quem, cara pálida?

E mais isso e mais aquilo e tudo mais que envolve o problema. O que quero dizer é que cobrar coerência de um cara como o MV Bill, que vai na Daslu lançar o seu livro porque recebe financiamento da dona pra construir sua sede e tocar seu projeto, é exagerado em um país sem coerência alguma daqueles que poderiam tentar dar coerência às suas ações. Ta lá o MV Bill com sua ONG, com grana da Daslu, com sessenta minutos do Fantástico, com o Faustão e tudo mais. Mas tá lá também seu filme dizendo que nada tá sendo feito e que os cadáveres vão se empilhando, e que de alguma forma fazemos de conta que nossa parte estamos fazendo.

Por algum motivo, um dia eu saí dessa. E um monte de maluco que andava comigo não saiu. Às vezes eu penso neles e me parece que tudo foi um sonho. Mas tá aí o MV Bill dizendo que é realidade e que o Alto da Vila Maria de 44 anos atrás é um paraíso perto das quebradas de hoje, seja a Cidade de Deus ou o Capão Redondo ou o Planeta dos Macacos.

Obs: texto publicado na Caros Amigos, sem número.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

PLACA PCR 9161

Sòcrates Santana

A Pista. O Carro. A Placa. O Rapaz. Passa. O Meio-fio.
O Rapaz. Passa. O Meio-fio. A Pista. O Carro! A Placa.
A Placa. Passa. O Carro. O Rapaz. Na Pista. No Meio-fio.
O Rapaz. No Meio-fio. O Carro. Na Pista. Passa. A Placa.
PCR 9161

Nudez

Raiça Bomfim

Afora o homem tudo é nudez.

Debaixo de um céu enorme,
estalando na corredeira,
me ponho afora.

A nudez é anterior à gente
e comum aos outros.

A nudez é anterior...
Mas eu, mulher da cidade,
me dispo.

E tudo parece assombrar-se.

Como houvesse o nascimento
d’algum bicho
ou o retorno da rainha.

Ponho a humanidade
afora
e o mundo estranha.

Mas enfim me reconhece
e segue seu curso

contendo-me em espécie
e pulso
novamente humana,
finalmente humana...

Só existem homens nus.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Escritos sobre a Greve – 11º PARTE

Soul Sócrates

O velho barbudo ainda esboçava uma reação, perante o desespero do menino, que ainda não acreditava no ato pouco provável que realizou contra um homem, quando o mesmo tomou-lhe - em um só golpe - o livro e a vida. O menino subiu calado às escadas do metrô, com os braços sujos de sangue, livro no sovaco, cabeça baixa e um olhar compenetrado, distante dos papéis que voavam na rua para ilustrar a imagem descrita, dos meninos que preparavam mais um coquetel molotove e dos arrepios póstumos de um ancião das palavras inauditas, morto pelo ímpeto juvenil de descobrir a verdade. A atenção dele estava voltada para as frases absortas sobre o peleguismo e a liderança cinzenta que comandava centenas de militantes imaginários espalhados pela grande rede, e que reescreveu a Convenção Das Coisas Importantes Que Não Poderiam Ser Ditas e convocou numa aleatória manhã de um mês qualquer, todas as lideranças e simpatizantes do partido maior com alguns dias de antecedência, distribuindo camisetas, bandeiras, broches, praguinhas, bonés e textos persuasivos sobre a nova era e os novos rumos dos sinistros dirigentes dos sindicatos esquecidos para deliberar encaminhamentos sobre a diretrizes republicanas que deveriam ser adotadas pela renovada composição do diretório de todas as pessoas e nomes. Por isso, na cabeça do menino ainda giravam, como círculos, gangorras, rodas, balanços, espirais e propagandas de cerveja, os métodos usados para garantir lotação máxima no salão onde iria pronunciar o grande baluarte do partido, como os ônibus à disposição dos dirigentes sindicais, os vales combustíveis fornecidos na véspera das prévias extraordinárias para os grandes quadros partidários, assim como a chegada dos manifestantes nas primeiras horas do dia, para, em fila, cada um garantir seu lugar. Tudo muito revisado, organizado, repassado, fiscalizado e minuciosamente registrado no livro de atas da superintendência especial das cerimônias inesperadas da turma do deixa disto.

Escritos sobre a greve - 1º PARTE
Escritos sobre a greve - 2º PARTE
Escritos sobre a greve - 3º PARTE
Escritos sobre a greve - 4º PARTE
Escritos sobre a greve - 5º PARTE
Escritos sobre a greve - 6º PARTE
Escritos sobre a greve - 7º PARTE
Escritos sobre a greve - 8º PARTE
Escritos sobre a greve - 9º PARTE
Escritos sobre a greve - 10º PARTE
Escritos sobre a greve - 11º PARTE

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Notas mínimas

embarque

Katherine Funke

Estava ali na zona de transição entre uma cidade e outra, prestes a embarcar em um avião; ali não era lugar para apegos ou lembranças. Depois do beijo, disse-lhe adeus, deu as costas, sorriu para ver mais uma vez a cara dele, e pensou - não sem pontada de alegria e medo no peito - que uma nova vida iria começar dali em diante.

toda manhã

Katherine Funke

Chove no rosto dela. E no corpo e na bolsa. Carla saiu de casa sem proteção. E de sandália. Agora anda pelas calçadas molhadas, sem marquises para abrigá-la. "Eu não tô nem aí pra morte/não tô nem aí pra sorte/eu quero mais é decolar toda manhã...", ela cantarola, pra si mesma. Arnaldo Baptista era seu herói. Então vai para o trabalho debaixo de chuva, e brinca com os pés com as poças do caminho, e tenta descobrir a temperatura da água testando-a com a língua sobre a pele do antebraço. São 7h30 da manhã, suas sandálias estão cada vez mais encharcadas. Chove no rosto de Carla, e ela sorri.

o importuno

Katherine Funke

Veio correndo inacreditavelmente na direção da fila. Atropelou duas mulheres (uma delas bem jovem e bonita à qual ainda dirigiu um leve gesto de cabeça, em desculpas) e um rapaz. Equilibrava num braço um notebook aberto. Nas orelhas, um fone de ouvido conectado ao celular. E senta-se ali, à beira do embarque na aeronave do vôo 1605, ainda resolvendo seus problemas com a pressa de um jovem empresário.

O que ninguém sabia é que ele só estava no telefone com a mulher, que queria saber, nos últimos instantes, qual tipo de queijo o marido queria no macarrão para jantar. Para isso havia enviado um e-mail com cinco tipos exóticos a serem avaliados em dois minutos. E ele avaliara. Decidira pelo coalho, que nunca comera, porque chegou a Brasil há duas semanas. Definir o cardápio era, de fato, uma questão de urgência máxima, se tivesse a ver com ser atencioso com sua adorada e perfeita Paloma.